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Vozes da Literatura

A escritora Ilma Pereira reflete sobre os voos ilimitados da ficção

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Em uma conversa intimista concedida ao Café Literário, a escritora mineira Ilma Pereira compartilha os bastidores de seu processo criativo e revela como sua sólida bagagem de leitura molda sua identidade ficcional. Equilibrando o desejo de construir uma voz própria com o aprendizado herdado de clássicos como Machado de Assis e Dostoiévski, a autora explica como a leitura crítica serve de bússola para dosar a ironia e a profundidade em suas narrativas. Para ela, o convívio com os autores consagrados é uma aplicação prática da máxima de Guimarães Rosa: “É junto dos bão que a gente fica mió”.

Além da influência dos grandes nomes da literatura, Ilma detalha como sua atuação como educadora e sua paixão pelo humanismo de pensadores e autores — como Paulo Freire, Rubem Alves, Clarice Lispector e Maria José Dupré — funcionam como alicerces existenciais para os conflitos de suas páginas. Ao longo desta entrevista, a escritora reflete sobre o papel da crônica urbana na era digital, o fazer literário em tempos de pós-verdade e a importância dos espaços coletivos no mercado editorial, oferecendo um olhar sensível e perspicaz sobre a literatura como espelho, refúgio e transmutação pessoal.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Quando escrevo, busco ter minha própria voz, contar as histórias de um jeito que me agradaria se fosse o leitor, mas, sem dúvida, ao ler criticamente os grandes clássicos, tento descobrir como fazer para soar irônica com a classe do Machado, ou para aprofundar num tema sem ser maçante, como nos ensina Dostoievski. Rosa já nos ensinou: “É junto dos bão que a gente fica mió.” Então, quanto mais leio, mais me aproprio do jeito de fazer a literatura dos consagrados.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Como educadora e leitora, sempre admirei alguns autores e grandes pensadores por serem humanistas e acredito que influenciam a minha escrita, como alguns que citarei a seguir. Paulo Freire acreditava que o ser humano sempre podia “ser mais”, podia se realizar e ser capaz de transformar o mundo. Maria José Dupré me cativou por contar histórias de enredos simples, mas inesquecíveis que guardamos para sempre na memória. Rubem Alves enxergava a vida e o ensino como uma arte, defendia o direito ao ócio, aos sonhos e a uma existência guiada pelo prazer de viver e sentir. Clarice Lispector sempre tentou desvendar o que vai na alma humana e uma de suas principais características era a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano. Então acredito que de alguma forma o que aprendi com eles ressoa em minha escrita.

“Sou fã de crônicas e acredito que são indispensáveis”

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Sou fã de crônicas e acredito que são indispensáveis, pois o bom cronista consegue nos fazer enxergar sob outro viés — principalmente do humor — um assunto batido ou inexplorado. Sou fã da Martha Medeiros, com sua prosa sensível e inteligente sobre relacionamentos, filosofia de vida e dilemas modernos. E que saudades do Luis Fernando Verissimo que nos deixou há pouco tempo, e que nos encantava com seu humor fino, perspicaz e contundente ao tratar de temas urbanos e cotidianos. Seja relendo Drummond, Rubem Braga, ou lendo Antônio Prata e Cidinha da Silva, uma boa crônica sempre terá lugar cativo entre os leitores.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

A maravilha da literatura é que ela pode e deve extrapolar um fato real, não há amarras nem julgamentos para seus voos. Acredito que, se eu fosse jornalista, sofreria em não poder aumentar um cadinho na história ouvida. Então, para mim, o fato jornalístico é a base de apoio para os voos ilimitados de minhas histórias.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Quando leio uma boa história, ela penetra pelos meus poros e aloja-se em meu cérebro. E ali fica virando e revirando, atormentando o meu ser ou injetando pequenas doses de satisfação a partir da narrativa. Cada livro cumpre um determinado papel pensado pelo autor, seja diversão, reflexão, denúncia, etc. Mas nem todo livro consegue se alojar em nós. Há que ser um exímio contador de histórias para atingir em cheio o leitor. Cito Flores para Algernon, de Daniel Keyes e o Avesso da pele, de Jefferson Tenório como livros de denúncia e que até hoje estão revirando em minha mente. Mas por outro lado, O sol é para todos, da Harper Lee e O amante japonês, da Isabel Allende também são de denúncia, mas nos fazem acreditar que existem bons seres humanos. Então, se lermos, encontraremos livros que cumprirão o objetivo a que se propõem, mas é preciso ler realmente para descobri-los.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Conhecimento nunca é demais. Quanto mais conhecer um gênero, mais recursos teremos para explorá-lo e extrapolá-lo. Um escritor profissional é aquele que explora sem medo e sem preguiça todos os recursos do gênero que quer escrever: escreve, reescreve, reescreve, ouve críticas, reescreve, reescreve… Por outro lado, se aventurar em gêneros pouco explorados costuma fazer muito bem e nos apresentar um novo caminho.

Ilma, referência da literatura contemporânea

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Posso falar de todos os assuntos, não me sinto tolhida a me calar sobre nada. Mas há assuntos que me agradam mais, não fico pensando demais se vai agradar a ou b, porque é impossível agradar a todos. Então, escrevo sobre o que eu, como leitora, gostaria de ler.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Concordo com o Daniel Marchi e acredito que juntos somos mais fortes. Busco me associar a outros escritores, tento apoiar projetos dos colegas, participo de ideias, projetos literários propostos pelos amigos escritores. “Uma andorinha sozinha não faz verão.”

“Acredito que um bom texto deve passar por outros olhares”

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

É fundamental para o escritor, que quer atingir seus leitores, se abrir para críticas construtivas. Também é preciso não se apegar demais a seus escritos e aceitar opiniões contrárias, mas que nitidamente acrescentam à história. Sempre que posso, participo de grupos que fazem leitura crítica ou beta, troco textos com outros escritores, porque acredito que um bom texto deve passar por outros olhares antes de sua partida para o mundo.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Sem dúvida que nunca houve tanta democratização para a publicação de textos escritos, porém há que se fazer um adendo: quantidade nem sempre é qualidade. Mas concordo com o Eduardo que temos uma estupenda geração de escritores atualmente, o que não temos ainda é a validação de que são realmente bons, porque geralmente isso só acontece muitos anos depois ou postumamente. Lamentável.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

A escrita para mim é o lugar onde gosto de estar, é onde me realizo, me transmuto, me descubro ou até me escondo. Há muito de mim, do que sofro, do que desejo, do que me angustia em meus escritos. Se é fuga ou espelho, não sei. Só sei que meus textos dialogam com quem sou e com quem nem sei que sou.

“Gosto de observar, ouvir e estar em ambientes que tenham pessoas”

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Minhas histórias, personagens, enredos sempre giram em torno de pessoas e seu cotidiano. Então gosto de observar, ouvir e estar em ambientes que tenham pessoas, porque elas sempre me surpreendem com suas idiossincrasias.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

O que funciona para mim é: posto sempre que possível assuntos que me interessam, faço parcerias com amigos escritores, compartilho, curto as publicações dos outros. Entendo que as redes sociais são um meio de se alcançar e manter leitores, mas não é a única maneira. Não se deixar escravizar pelo algoritmo nos ajuda a manter a sanidade mental.

“Ler é viajar para mundos inimagináveis”

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Esses espaços são de fundamental importância, porque dão oportunidade, dão visibilidade para novos escritores, além de fortalecer sua autoestima. Muitos autores sofrem com medo da publicação do primeiro texto, mas tendo um ambiente tão acolhedor e inclusivo como o Café Literário, a possiblidade de sua coragem crescer é absoluta. Meu primeiro texto veio ao mundo publicado num jornalzinho de escola com pouco alcance. Imagine o alcance que hoje a internet proporciona. Vida longa ao Café Literário e outros portais de jornalismo cultural.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

“Ler é viajar para mundos inimagináveis, portanto largue o celular e permita-se ser abduzido por um livro. Que tal os livros de Ilma Pereira?”

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Ilma Pereira é escritora e poeta de Belo Horizonte. Tem cinco livros publicados, três noveletas e participação em diversas antologias de contos e poética.
Participa de rodas de conversa, bate-papos em escolas, bibliotecas, feiras culturais e bienais para incentivo à leitura.
Ajuda escritores a aprimorar seus textos fazendo revisão e leitura crítica.
Ler, escrever, viajar e curtir a família são suas maiores paixões.
Instagram: @ilmapenumo

Compre aqui os livros da escritora Ilma Pereira: https://linktr.ee/ilmapenumo?utm_source=linktree_profile_share

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