Crítica literária
A escritora Tania Miranda surpreende com “A volta do justiceiro”
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A Volta do Justiceiro é o mais novo lançamento de uma das vozes mais prolíficas da literatura contemporânea: Tania Miranda. Já consagrada entre o público por suas crônicas diárias na editoria Ponto de Vista do Notibras, bem como por diversas outras aqui no Café Literário, Tania surpreende o leitor ao mergulhar com maestria no realismo fantástico, estabelecendo um diálogo vigoroso entre a tradição do sertão e a fantasia moderna.
Nesta obra, o cenário transcende a geografia; o sobrenatural não é um adereço, mas parte integrante da realidade física. A escritora utiliza a ambientação para resgatar o folclore nacional, elevando mitos conhecidos ao status de forças da natureza imprevisíveis e perigosas, distanciando-os definitivamente de qualquer abordagem meramente infantil. Tania transmite uma seriedade e respeito em relação a tais mitos, algo que foge do comum.
O pilar central da narrativa é o uso estratégico da Quaresma. Este intervalo litúrgico atua como uma “fresta” no tempo, permitindo que o místico subverta o cotidiano dos personagens. Essa escolha confere ao romance um tom de suspense metafísico: o perigo é onipresente, manifestando-se tanto na brutalidade dos crimes humanos quanto no horror inexplicável de entidades como o Boitatá e o Saci. E isso deixa o leitor ávido por descobrir o que acontecerá na próxima página. Ávido e tenso, por sinal.
A construção dos personagens oferece uma lufada de ar fresco ao gênero. Ao protagonizar Graça e Maria — mulheres que renunciam à exaustão da roça para atuar como caçadoras de recompensas —, a autora rompe com a passividade feminina recorrente no regionalismo clássico. Elas injetam um dinamismo pragmático e econômico na trama, modernizando o enredo sob uma lógica de sobrevivência e independência. Esse evento demonstra que Tania Miranda é uma escritora atenta às mudanças cada vez mais presentes na nossa sociedade.
No centro desse embate entre razão e mistério está Juvêncio (Delegado Vicente). O antigo “Justiceiro do Sertão”, agora investido de autoridade federal, atua como o mediador necessário entre a lei institucional e o saber empírico. Sua presença permite que a obra flerte com o noir rural, onde a investigação criminal exige a aceitação de leis que transcendem a lógica humana.
Quanto à forma, o texto é profundamente marcado pela oralidade, simulando a cadência envolvente de um contador de causos. Se, por um lado, o tom ocasionalmente didático ao explicar as lendas desacelera o ritmo da ação, por outro, ele cumpre uma função nobre: a preservação da memória imaterial brasileira. Tania Miranda não importa monstros estrangeiros; ela extrai o medo da própria terra. Isso, aliás, a coloca ao lado de grandes escritores nacionalistas como José de Alencar, Guimarães Rosa e Ariano Suassuna, ao menos no campo das ideias.
A Volta do Justiceiro é um exercício coeso de horror corporal, mistério e folclore. A obra destaca-se por modernizar o regionalismo, abordando temas contemporâneos como a autonomia feminina e as limitações das instituições frente aos abismos do mistério nacional. É uma leitura indispensável para quem busca uma literatura que seja, ao mesmo tempo, universal em seu suspense e visceralmente brasileira em sua essência.
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