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Aldir Blanc...

A esperança equilibrista

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Foto Francisco Filipino

“Caía / a tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto /
me lembrou Carlitos…”
(O Bêbado e a Equilibrista, Aldir Blanc e João Bosco)

Hoje eu acordei com esta canção/letra repetindo na minha cabeça feito um disco riscado. Lembrei-me de 04 de maio de 2020, quando a manhã caiu feito um viaduto; a manhã, a tarde, o dia e a vida.

A Covid 19 – então no início de sua devastação histórica -, acabara de levar Aldir Blanc.

Compositor, psicanalista, ritmista, carioca da gema e um dos maiores poetas/letristas da MPB. E cronista extraordinário. Morreria ali um pouco de todos nós, aquele sincero “AMIGO é pra essas coisas…”

Quem poderá esquecer as dezenas de canções da dupla João Bosco e Aldir Blanc?

Aldir escreveu mais de 500 letras poéticas musicais para vários parceiros ao longo da vida. São crônicas atemporais. Encantadas. Eternas.

São poesias do povo. Ironia, Aldir, que o Amigo se foi no exato momento em que estávamos todos tolos e apavorados, feitos O bêbado e a equilibrista, tropeçando em cada passo desta “linha com a nossa democracia em risco”, enquanto “Chorava a nossa pátria-mãe-gentil” por culpa dos desvarios de alguns filhos desgarrados e desumanos comandados por Bolsonaro. Sei, poeta, Amigo é pra essas coisas, Aldir, mas, de fato, foi preciso muita coragem e luta para seguirmos firmes com corpos e almas de Galos de briga, acreditando na hora futura da “cuíca roncar – e roncou, sim” para salvar os nossos “corpos estendidos no chão”.

Aquele momento de impasse e trevas viraram terror/breu mais intenso e profundo com a tua partida naquela entorpecida “vida noturna” imposta ao Brasil feito um pesadelo permanente e interminável. Tempo de todos os vírus ao mesmo tempo. E sobrevivemos, Aldir.

Segui pela manhã pensando e ouvindo os discos antológicos. E nutrindo a esperança – e a certeza – de que você chegou a um lugar melhor e foi recebido pelo Betinho (para quem você escreveu e dedicou a letra do Bêbado e a Equilibrista) e o irmão dele, o cartunista/artista Henfil, ambos geniais.

Que festerê, não grande vascaíno?

Sei que sim.

Hoje, seis anos depois, superamos – em parte – o terror daqueles dias. Vencemos o governo fascista de Bolsonaro, a tentativa criminosa de novo golpe e logo teremos eleições gerais sem retrocessos, espero.

“[…] dança / na corda bamba de sombrinha / que em cada passo desta linha / pode se machucar / Azar / a Esperança equilibrista / sabe que o show de cada artista / tem que continuar.”

Obrigado, e até logo mais…

…………………………..

*EM TEMPO:- O Aldir estava internado com pneumonia já há algum tempo. Com os cuidados e testes, infelizmente, confirmou-se positivo o vírus do covid 19. O vírus é real e não uma “gripinha”, embora haja quem defenda tal insanidade. Aldir Blanc merece ficar acima da mesquinharia político-partidária que vivemos há séculos neste país. Infelizmente, foram 700 mil mortos. Não consigo entender tanta polêmica, tanta insanidade. Tudo dói. A morte do grande Aldir irá doer para sempre. E como dói!

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e aprendiz de poeta nos braços de Aldir. Vive na vila de pescadores da Guarda do Embaú, litoral de SC.

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