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Entre Sarte e o presunto

A existência precede a mortadela

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Vida de adulto tem dessas coisas, é a maior correria. Tão atribulada, que até pique-pega no parquinho parece câmera-lenta. E nem adianta parar para reclamar, o perigo de ser atropelado não perdoa.

— Sai da frente, Jonas!

Esse aí que acabou de gritar é o Almeida, um dos meus colegas aqui no supermercado. Ele é repositor, vive transitando entre os corredores, tem paciência de boi de rodeio. Não chega às vias de fato, pelo menos nunca o vi envolvido em contendas físicas, parece que esse modo de ser é consequência da brutalidade da pobreza.

Tirando o dono do estabelecimento, que vi uma ou duas vezes nesses quase cinco anos de casa, todos por aqui não nascemos em berço de ouro. Isso não parece impedimento para um ou outro se sentir superior ou, então, não se misturar. Não os culpo, tampouco lhes concedo perdão, seja pela falta de poder, seja por compaixão.

Luana, cuja miséria foi incapaz de arrancar-lhe toda a beleza, é uma das mais simpáticas. Simpática com todos, na verdade, o que me deixa, de certo modo, enciumado. Se estou agindo como um tolo, talvez, prefiro imaginar que sou estrategista da própria sobrevivência, ou melhor, da sanidade que me resta.

Já pensei em chamar a Luana para um sorvete. Creio que ela iria rir da situação, pois é responsável por esse produto aqui no mercado. Não, sorvete não. Melhor seria um cinema, mas o preço da pipoca é um horror. Qualquer hora a convido para ver um filme lá em casa, e deixa que a pipoca eu faço. Pelo menos não precisarei fazer um vale com o gerente.

Gosto do Marco Antônio. Não a ponto de dialogar mais do que os breves momentos de descontração durante as pausas para o almoço. Percebo que ele sempre mastiga mais do que todos, os olhos perdidos ou em busca de algo. Será que ele sempre foi um dos nossos ou, não duvido, o pai ou o avô foi um herdeiro incauto? Talvez seja o seu jeito mesmo e se apegue ao devaneio para escapar, ao menos por um instante, desse labirinto que nascemos.

Dia desses, o Marco Antônio puxou assunto comigo. Deve ser porque nossos olhos se cruzaram. Tentei disfarçar, fiz cara de atento a algo qualquer. Não colou.

— Jonas, tu gosta de Sartre?

Sartre? Não fazia ideia do que seria. Por sorte, Carlos, o gerente, me arrancou daquela sinuca.

— Jonas, estamos com problema com os frios. Vá lá agora.

Sartre. Jean-Paul Charles Aymard Sartre ou, como Marco Antônio disse, simplesmente Sartre. Ele foi… Precisei decorar algumas coisas sobre esse sujeito, que foi filósofo existencialista, enquanto eu só estou tentando sobreviver neste mundo. Ele teve um caso com uma tal Simone de Beauvoir. Na verdade, a Luana é mais bonita, pelo menos é o que eu acho. Se bem que o Sartre parece ter tido mais sorte do que eu. Será que a Luana aceitaria ser a minha Simone?

No dia seguinte, enquanto mexia em presuntos e mortadelas, vi o Marco Antônio se aproximar. Sorri e puxei conversa.

— Ah, acabei não te respondendo.

— O quê?

— Sobre o Sartre.

— Ah, tá.

— Filósofo existencialista… Ele é dos meus favoritos.

— É, mas prefiro Nietzsche.

— É… Você tem razão. Meu também.

Nietzsche? Não fazia a menor ideia do que o meu colega havia dito. E lá fui eu pesquisar novamente. Filósofo alemão, crítico voraz da religião, da cultura contemporânea, da moral. Não tive dúvida e, assim, comecei a evitar o Marco Antônio. Não por causa das ideias do Nietzche, que considero válidas, a questão era outra.

Luana, ah, Luana, o que o Gustavo tem que eu não tenho? A minha musa, há quase uma semana, anda de conversinha pelos cantos com o vigilante mais parrudo. Já me chegou que os dois engataram um relacionamento firme. Ah, Nietzsche, você é que está certo. Aquilo que não me mata me faz mais forte.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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