MARINA DUTRA
A fortaleza do controle e a ferida da injustiça
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O traço rígido surge a partir de uma ferida específica na história emocional de uma pessoa: a ferida da injustiça, vivida como repressão da força vital, dos impulsos naturais e da espontaneidade.
Enquanto o traço esquizoide se organiza muito cedo, pela rejeição, e o masoquista pela humilhação, o rígido se estrutura um pouco mais tarde, geralmente durante a fase edípica, entre os 3 e 6 anos de idade. É o momento em que a criança começa a afirmar sua vontade, explorar o próprio corpo, testar limites e reconhecer seus desejos.
Quando essa força emergente é censurada, constrangida ou punida, seja por uma educação excessivamente rígida, moralista ou controladora, a criança registra internamente uma mensagem clara: “Ser espontâneo é perigoso. Mostrar força é errado. Sentir prazer é culpa.”
É nessa ferida da injustiça, vivida como repressão da própria essência, que o traço rígido cria raízes.
O ambiente que molda o rígido costuma ser marcado por regras inflexíveis, perfeccionismo, moralismo ou por um clima emocionalmente controlador. A expressão natural da vitalidade, especialmente na forma de raiva, curiosidade sexual, orgulho ou simples exuberância é percebida como ameaça à ordem familiar.
A criança aprende que, para ser aceita e segura, precisa controlar, conter e disciplinar seus impulsos mais autênticos. O corpo então se organiza em torno de um ideal: ser forte, correto, impecável e, acima de tudo, não ceder.
No corpo, esse traço se expressa como uma armadura muscular crônica. O rígido apresenta um corpo contido, ereto e segmentado: ombros projetados para trás, peito estufado, mandíbula firme, quadril travado. Não é apenas postura, é contração contínua.
A energia vital, que deveria circular em ondas pelo corpo, fica represada em blocos musculares rígidos. A respiração tende a ser superficial, concentrada na parte superior do peito. O movimento é controlado, preciso, quase militar. É a estética do “soldado” ou do “atleta”, mas com um esforço constante, como se o corpo estivesse sempre em alerta para não ceder, não sentir demais, não se entregar.
Na vida adulta, o traço rígido se manifesta como uma busca incessante por controle, ordem e perfeição, tanto no mundo externo quanto no interno. A vida emocional costuma ser racionalizada. O prazer, quando permitido, vem condicionado ao mérito ou ao desempenho.
Há uma dificuldade profunda em soltar-se, seja no amor, no sexo, no lazer ou no simples fluir da vida. Existe um medo oculto de que, ao perder o controle, tudo desmorone.
No cotidiano, isso se revela em padrões claros:
-Dificuldade em relaxar verdadeiramente, mesmo em momentos de descanso.
-Perfeccionismo como forma de validação pessoal e proteção contra críticas.
-Controle emocional extremo: chorar ou demonstrar vulnerabilidade é vivido como falha grave.
-Tendência a analisar emoções em vez de senti-las no corpo.
-Relação complexa com a sexualidade, que pode oscilar entre repressão e performance, com dificuldade de entrega genuína.
-Postura de autossuficiência que encobre um medo profundo da dependência.
-Rigidez moral ou intelectual, com forte necessidade de estar certo e de seguir ou impor regras.
O rígido não é frio por natureza. Ele é disciplinado pelo trauma. O corpo aprendeu que espontaneidade é perigosa, que prazer pode gerar culpa e que a entrega emocional pode levar à humilhação.
Por trás da postura firme e da imagem de força, existe uma criança que precisou trocar sua vitalidade livre por um traje de dignidade controlada.
A cura do traço rígido não passa por quebrar disciplina ou valores, mas por flexibilizar a armadura e permitir que a vida volte a circular. É um processo de descongelamento, onde o controle dá lugar à confiança no fluxo natural do corpo e da existência.
O trabalho terapêutico envolve:
-Soltar a armadura muscular por meio de práticas corporais que favoreçam respiração profunda, movimento orgânico e liberação da pelve e do diafragma.
-Permitir a experiência do prazer sem culpa, reconectando-se com sensações físicas de bem-estar, calor e leveza.
-Acolher a vulnerabilidade como parte da força, e não como sua negação.
-Explorar a raiva contida de forma segura, dando voz à criança que teve sua autonomia reprimida.
-Praticar a rendição em contextos seguros: numa relação de confiança, num abraço prolongado ou até no simples ato de dançar sem um plano.
-Revisitar a sexualidade não como dever ou performance, mas como expressão de vitalidade, intimidade e conexão.
O grande salto acontece quando o rígido percebe, no próprio corpo, que soltar-se não é desmoronar é voltar a viver. A força verdadeira não está na contração permanente, mas na capacidade de expandir e recolher-se com fluidez.
Rrender-se ao fluxo da vida não é uma derrota. É, finalmente, encontrar o próprio ritmo.
A pergunta que pode abrir a porta da transformação é: “Quem eu seria se pudesse confiar no meu próprio corpo, sem precisar mantê-lo sob constante vigilância?”
E assim, chegamos ao final desta nossa série de cinco matérias sobre os traços de caráter. Queria lembrar que você, leitora, leitor, pode me acompanhar nas transmissões ao vivo “Terapias que reconectam”, pelo Instagram @sersuperconsciente, sempre às terças e quintas-feiras a partir das 19h. trazendo temas de muito significado para uma vida mais plena e feliz. Sigam lá, para não perder nenhuma atualização.
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Marina Dutra – Terapeuta
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