Raimunda
A gatinha não era assim chegada ao partido republicano
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Uma amiga minha voltou ao Brasil, depois de morar 5 anos na gringolândia. Vieram ela, o filho, o marido – e entre as armas e bagagens, estava uma gatinha ianque. Deu um trabalho dos diabos tirar documentos e vacinar a agregada, mas afinal os quatro entraram no avião.
A viagem não foi tranquila para o mais novo membro da família. A ferinha, em uma jaula, alternava miados lastimosos e frases indignadas e cheias de palavrões, do tipo “Alguém me explica que porra está acontecendo?” Mas afinal desembarcaram e foram para casa; e minha amiga informou que, talvez por cruzarem a Ipiranga e a avenida São João, alguma coisa aconteceu em seu coraçãozinho felino, e ela (a gatinha, não sua escrava) curtiu São Paulo.
Mas restava uma prova de fogo. Não a da canção de Wanderléa nos idos da Jovem Guarda; algo bem pior que admitir amor; a gringuinha de quatro patas teria de encarar a gataiada brazuca.
E os gatos vieram, curiosos como todos os felinos, olhando e cheirando a recém-chegada. E rosnando, ressabiados. Ela tentou se enturmar.
– Hi – miou, em inglês. Era um gentil “oi, tudo bem?” Não foi entendida.
– Rai? Vai pro rai que a parta! – miou um deles. O nome dado por sua escrava era Frajola, mas a galera o chamava de caipirão.
– Como é o seu nome? – perguntou o líder da tigrada tupiniquim.
E aí deu chabu. A gatinha não era chegada ao partido republicano – iria aderir à esquerda em pouco tempo no Brasil, seguindo o exemplo de seus escravos –, mas achava simpático um cara esquisito, que via sempre na televisão; parecia um gatão laranja. O nome dele era Trump, descobriu, e era o presidente do país. Ela passou a pensar em si mesma com um nome inspirado no dele.
– Trumpette – respondeu.
– Orra, trompete? – reagiu o gato alfa. – Tu não podia descolar um instrumento bem brasileiro, tipo cavaquinho, pandeiro, cuíca, tamborim?
– Tamborim não! – cortou um felino. – Tu esqueceu que ele é feito de couro de… bem, do nosso couro?
Verdade, pelo menos em parte. A maioria dos tamborins é feita de outros materiais, mas alguns miam na avenida. A coisa inspirou marchinhas de carnaval e um episódio do filme Cinco Vezes Favela, de 1962, marco do Cinema Novo. Mais ainda, tornou-se uma lenda urbana felina. Conta-se que as mamães gatas, entre lambidas e tapões, miam pros filhotes: “Se você não for um gatinho bem bonzinho, o moço do samba vem aqui e crau, faz de você um tamborim”.
O gatão líder engoliu em seco e prosseguiu.
– É, trompete não dá. E nem tam… aquele último instrumento que mencionei. Você já recebeu, ou vai receber, um nome de nossa escrava, mas precisa de um nome da galera, que possamos utilizar em nossos miados. Falando nisso, você mia?
A gringa entendeu e caprichou.
– Meeowow…
O gatão estremeceu.
– Que coisa horrível! É miau que a gente faz. Miau!
Ainda assim, a recém-chegada foi relutantemente aceita no bonde da gataiada. E todos passaram a uma nova fase do ritual de boas-vindas, a das cheiradas e lambidas no focinho e no fiofó. Foi então que um dos gatos, depois de devidamente cheirá-la, exclamou:
– Já sei o nome dela! Vai se chamar Raimunda: feia de cara, boa de… – a palavra seguinte foi sufocada pelo miado mais escrachado, mais cafajeste de todos os tempos.
Foi assim que a ex-Trumpette, batizada como Sweetie (doçura, docinho) pela escrava humana, recebeu o codinome felino de Raimunda, utilizado entre tapas, unhadas e lambidas carinhosas por seus pares rabudos.