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Estilhaços nos vidros

A guerra contra Irã encontrou, enfim, Dubai

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Durante muito tempo o mundo se acostumou a olhar para Dubai como um fenômeno quase improvável no meio do deserto, uma cidade que parecia crescer protegida por uma bolha de prosperidade enquanto o restante do Oriente Médio continuava a aparecer no noticiário associado a guerras, disputas religiosas e rearranjos constantes de poder. Arranha-céus cada vez mais ousados, hotéis que disputam entre si o título de mais luxuosos do planeta, aeroportos transformados em grandes cruzamentos globais de pessoas e negócios, tudo contribuía para consolidar a ideia de que ali havia surgido uma espécie de exceção regional, um lugar onde a turbulência histórica da vizinhança simplesmente não chegaria.

A guerra, porém, costuma ter pouca paciência com esse tipo de convicção.

Com o confronto aberto entre Estados Unidos e Israel de um lado e o Irã do outro, o Golfo voltou a sentir de forma direta a pressão da geopolítica que sempre moldou aquela região. Mísseis e drones cruzam o céu que até pouco tempo atrás parecia reservado apenas às rotas aéreas do turismo internacional, sistemas de defesa entram em operação e cidades que se acostumaram a vender tranquilidade passam a conviver com o som seco das interceptações no ar. Dubai e Abu Dhabi, que durante anos cultivaram a imagem de um oásis de estabilidade no meio da instabilidade regional, descobrem que continuam situadas exatamente onde sempre estiveram: no coração de um dos tabuleiros estratégicos mais delicados do planeta.

No centro desse cenário está Donald Trump, novamente presidente dos Estados Unidos e conduzindo uma política externa que, desde o primeiro mandato, deixou claro que não seria guiada pela paciência das negociações intermináveis. Trump sempre tratou o regime iraniano como um problema estratégico que deveria ser enfrentado com pressão econômica e demonstração de força, posição que se expressou no rompimento com o acordo nuclear e em decisões que marcaram profundamente a relação entre Washington e Teerã. Agora, com o conflito aberto ao lado de Israel, sua presença na Casa Branca torna-se um elemento ainda mais decisivo no cálculo político e militar da região.

O Irã que hoje se encontra no centro dessa confrontação, no entanto, carrega uma trajetória muito anterior ao regime instaurado pela Revolução Islâmica de 1979. Aquela terra já foi o núcleo do antigo Império Persa, uma das grandes potências da Antiguidade, e foi ali que governou Ciro, o Grande, personagem cuja presença atravessa não apenas a história persa, mas também a memória do povo judeu. Foi Ciro quem autorizou o retorno dos judeus a Jerusalém depois do período de exílio na Babilônia, decisão que marcou profundamente a tradição histórica da região e que, observada à distância dos séculos, revela uma ironia difícil de ignorar.

O tempo, como se sabe, tem uma habilidade particular para alterar completamente o significado dos acontecimentos.

Séculos se passaram desde aquele momento, impérios surgiram e desapareceram, fronteiras foram redesenhadas inúmeras vezes e o Oriente Médio continuou a viver sob uma sucessão quase contínua de disputas políticas, religiosas e estratégicas. Talvez por isso a paz naquela região raramente pareça definitiva, como se estivesse sempre sujeita ao peso de uma história que nunca deixou de se mover.

Durante décadas acreditou-se que o Golfo havia encontrado uma fórmula capaz de escapar desse ciclo. A combinação de petróleo, comércio internacional e turismo transformou cidades como Dubai e Abu Dhabi em símbolos de prosperidade e modernidade, construindo a impressão de que ali teria surgido uma realidade diferente daquela que marcou grande parte do Oriente Médio.

Mas a história, quando decide avançar, costuma ignorar projetos cuidadosamente planejados.

No sul do Irã permanecem as ruínas de Persépolis, antiga capital do Império Persa, onde colunas de pedra erguidas há mais de dois mil anos continuam de pé como testemunhas silenciosas de um tempo em que governantes também acreditavam estar construindo algo permanente.

Talvez as cidades de vidro do Golfo estejam começando agora a perceber que, naquela parte do mundo, a história raramente aceita permanecer do lado de fora.

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