Praia de Cima
A guerra das tainhas
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Maio é a chegada das tainhas. As comunidades pesqueiras ficam em festa como no Nordeste com as Festas Juninas.
Este ano chegaram em junho atrasadas.
Acordei com os galos e fui andar pela Praia de Cima, na Pinheira SC.
Do nada alguém gritou:
“Tainha…Tainha …cardume grande…”
Dormente ainda topei com os “rapazi” saindo do rancho e correndo pro mar. Canoas (6 com redes de 700 metros cada).
“Vamo, Vamo, Vamos rapazis”.
Duas horas depois a puxada das 3 primeiras redes. Repletas. As tainhas pulando tentando escapar das malhas funerais.
Na terceira hora, milhares de tainhas já estavam na praia. E assim foi.
Quando as 6 redes foram puxadas, cerca de 70 mil tainhas cobriram as areias brancas da Praia de Cima, Pinheira SC, num Record de décadas.
Os caminhões das empresas pesqueiras foram encostando feito moscas em carniça.
Entupiram a subida da rua da praia e, aos gritos, as pessoas da comunidade e os barões da indústria pesqueira foram transformando a cena de pesca nativa em um negócio meio cultural, meu capitalista de caça e morte de milhares de peixes que entraram pela enseada para desovar.
Cenas de êxtase e carnaval fora de época com o povo gritando e tirando peixes das redes e cobrindo a praia.
Deixei a Praia de Cima antes da contagem final. Conheço o ritual há anos e sei que após o êxtase pouco ficará de concreto para as pessoas da comunidade.
Paro no bar do do seu Dutra e observo o papo que rola.
“Oi, oi só…mais um ano e esses boca-mole enrolando nois…sacanagem…ajudo na rede e nem uma tainha de gratidão…elas ficam tudo no gelo…nos caminhão…Vó lá busca o meu quinhão, a minha tainha…eu sou nativo, da Pinheira e tenho direito.”, desabafou Tião de Leca.
“Te aqui tá, mandrião… oce nasceu aqui e parece que não aprendeu nada?”, respondeu o seu Paco esfregando as mãos cicatrizadas nos cortes de décadas de pesca
Decidi ir pra casa. Sem tainha, sem vantagens, mas com as histórias de mais uma Guerra das Tainhas vivenciada.
Antes de sair do bar do Dutra, ainda ouvi o seu Paco dizer:
“Os tempos mudaram, rapazi… camarão que dorme a onda leva”.
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* Gilberto Motta – Guarda do Embaú/Pinheira / SC.
** Foto de Tasso Scherer – Guarda do Embaú / SC.