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De via expressa a parque da cidade

A história e o sucesso do Eixão do Lazer em Brasília

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Autor/Imagem:
Janaína Costa - Fotos Irene Araújo

O Eixo Rodoviário de Brasília, carinhosamente conhecido por toda a população como Eixão, nasceu junto com a inauguração da capital federal, no dia 21 de abril de 1960. Desenhado originalmente pelo urbanista Lúcio Costa, esse gigante de asfalto foi pensado para ser as “asas do avião” no formato do Plano Piloto, ligando a zona norte à zona sul da cidade.

No projeto original, a ideia principal era criar uma via expressa de alta velocidade, livre de cruzamentos diretos, para facilitar o trânsito rápido de veículos. Com cerca de treze quilômetros de extensão, a avenida se tornou uma das artérias mais importantes de Brasília, conectando a Ponte do Bragueto, ao norte, até a Estrada Parque Aeroporto, na região sul.

Com o passar dos anos, o fluxo de automóveis aumentou drasticamente na capital, chegando a registrar a circulação diária de mais de 120 mil veículos em tempos recentes. Esse tráfego intenso e veloz acabou transformando a grande avenida em uma verdadeira barreira física, que separava os moradores das quadras residenciais das Asas Sul e Norte.

Para tentar diminuir o isolamento provocado pelas sete faixas de asfalto, foram construídas 16 passagens subterrâneas ao longo da via, divididas igualmente entre os lados norte e sul. No entanto, devido à sensação de insegurança e a problemas estruturais nesses túneis, muitas pessoas ainda se arriscavam a atravessar as pistas por cima, dividindo espaço com os carros a 80 km/h.

Percebendo a falta de espaços de convivência e a necessidade de interligar a comunidade, os próprios moradores de Brasília começaram a desejar um uso diferente para aquele local. A ideia de transformar a rodovia em um ponto de encontro comunitário partiu da população, que realizou testes informais e discussões na década de 1990.

O desejo popular virou realidade no dia 14 de junho de 1991, data em que foi instituído oficialmente o fechamento da via expressa para os carros. A partir daquele momento, o ronco dos motores e a poluição deram lugar ao som de risadas, música, rodas de conversa e passos de crianças correndo livremente pelas pistas vazias.

Com essa iniciativa inovadora, nasceu o Eixão do Lazer, um projeto que hoje já conta com quase 35 anos de história na capital federal. A iniciativa transformou com sucesso uma rodovia de trânsito rápido em um dos maiores parques lineares a céu aberto de todo o território brasileiro.

O funcionamento do Eixão do Lazer segue regras bem claras e ocorre sempre aos domingos e feriados nacionais, no período das 6h às 18h. Durante essas doze horas, o trânsito de automóveis e caminhões fica totalmente proibido, e as pistas ficam liberadas exclusivamente para o uso dos pedestres.

O espaço se tornou um verdadeiro ponto de encontro democrático, onde pessoas de todas as idades praticam diversas modalidades de atividades físicas. É muito comum ver o asfalto tomado por praticantes de caminhadas, corridas, passeios de bicicleta, além de skatistas e patinadores aproveitando as retas da via.

Além do esporte, o local abriga uma enorme variedade de manifestações culturais e opções de entretenimento para quem busca passar o dia fora de casa. O público pode aproveitar piqueniques nos gramados, feiras com produtos de artesanato local, apresentações artísticas de rua e diversas opções gastronômicas em food trucks.

Uma das grandes curiosidades físicas da via é a sua faixa central, que não é utilizada para o tráfego comum de veículos. Ela ficou conhecida pelo nome de “faixa presidencial”, pois os moradores antigos contavam que ela servia para a passagem rápida dos comboios oficiais dos presidentes da República no início da capital.

Apesar de a história da exclusividade presidencial ser contestada por pioneiros, o Departamento de Estradas e Rodagem confirma que o espaço serve como faixa de separação. Atualmente, esse corredor central continua livre e pode ser acessado de forma segura por ambulâncias, viaturas e veículos oficiais em casos de emergência.

Por conta de sua importância histórica e social, a manutenção da estrutura asfáltica e dos viadutos do Eixão exige atenção constante das autoridades públicas. Um exemplo disso foi a grande reforma asfáltica e de sinalização ocorrida em 2020, além do monitoramento constante das pontes após problemas estruturais em 2018.

A relevância cultural e comunitária do Eixão do Lazer é tão gigante para a identidade de Brasília que o espaço ganhou defensores importantes. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, defende ativamente o projeto dominical como um verdadeiro Patrimônio Cultural imaterial da cidade.

Esse reconhecimento oficial do IPHAN consolida o Eixão do Lazer como um símbolo máximo de ocupação correta e pacífica do espaço público urbano. O projeto prova que uma cidade planejada para automóveis pode se reinventar constantemente, colocando o bem-estar e a integração das pessoas em primeiro lugar.

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