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Resiliência

A luz no breu

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

Naquela noite, o coraçãozinho dela batia descompassado.

Era um Toc, Toc e Tum… Tum Tum, assim sem métrica e sentido.

Antes de sair da barraca no fundo circo, deixou o Divino com a vela acesa nas mãos ao lado do Marinho, bebê de menos de um ano. A vela seria a luz para guiar o espírito do menino caso acorresse algum imprevisto de partida precoce do meu mano.

Eu não era nem projeto de ser. Mas nossos pais, mano Marinho e Divino, nosso “secretário” e pajem, já andavam pelo interior de São Paulo com o nosso Circo Teatro Motinha e Nhá Fia há alguns anos.

“Beto, ele estava com aquele veuzinho branco nos olhos; olhou pra mim e sorriu e eu fui, de Nhá Fia e entrei no palco com teu pai… Motinha e Nhá Fia, os parceiros da Alegria… limpei a lágrima dos olhos, calcei a cara, e fizemos outro noite de alegria”, disse-me nossa mãe Nair, alguns anos antes da partida amorosa.

Situações como essa vivida por nossa mãe sempre mexeram comigo.

Nesses anos de estrada, busco perceber o quanto podemos ser fortes e capazes de ter enfrentamento, resiliência.

Imagine só: o filho com o “véu nos olhos”, a vela na mão e a mulher não perder o compasso e a determinação. Respirar, assumir a atriz/artista e entrar no palco para fazer graças e cantar e levar o público ao delírio?

Sempre quis escrever sobre esse episódio de nossas vidas, mas apenas hoje estou ousando tentar.

Tá, parece novela mexicana, coisas da TV Tupi nos anos 60…Sim. Porém, é um momento único capaz de cutucar o peito da gente com a espada da emoção; pura cena de amor, resistência e superação.

Final do espetáculo.

Nair desce a escadinha do palco com “sebo nas canelas” e chega à barraca onde deixou o Marinho.

Como por mágica, o menino está no colo do Divino, brincando com um bichinho de borracha e dando gargalhadas.

“Filho, naquele instante eu acreditei de verdade em algum Deus… não o das igrejas, mas o dos nossos corações”, completou a nossa mãe.

Caminhando pelas veredas da vida, hoje, setenta anos depois, penso em Nair, em Mário-pai, no mano Marinho e no Divino – nosso anjo sempre de pilequinho – e percebo o quanto a noção de tempo é frágil, efêmera.

Vivemos situações e somos as nossas circunstâncias.

O que diferencia tudo?

Creio que as emoções, os sentimentos.

Também chamamos a isso de AMOR.

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*Foto: Família Motta, Circo Teatro Motinha e Nhá Fia, anos 50/60.

Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador de histórias quase esquecidas que sempre estarão ali no cantinho da casa à nossa espera… Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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