Passarinho
A Mário Quintana
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Gente, tenho medo de estar cometendo um plágio involuntário. Acho impossível que algum fio de uma égua já não tenha explorado o tema. Seja como for, vamos em frente.
Porto Alegre, final de 1973. O poeta caminhava absorto, enquanto a noite caía. Sua mente vagueava a esmo, em ziguezagues – era uma especialidade sua –, até se fixar no seu pobre Grêmio, coitadinho.
“Bah. Desde 1969 os colorados ganham um gauchão após o outro. Já são cinco campeonatos seguidos… Espero que, em 1974, seja a nossa vez!”
Ele não podia saber, mas o Internacional seria octacampeão gaúcho; somente em 1977 a metade azul do estado conseguiu estampar um sorriso no rosto.
Pensou em procurar seu amigo Lupicínio Rodrigues para, juntos, lastimarem mais uma derrota gremista, mas desistiu. Era cedo para fazer a ronda dos botequins até encontrá-lo e, além do mais, soubera que Lupi não estava muito bem de saúde. Mas isso o fez recordar amigos e marcos de sua vida em Porto Alegre, onde chegara em 1918, aos 13 anos, vindo de sua Alegrete natal.
“Um absurdo me colocarem no Colégio Militar. Mas foi no jornal do estabelecimento que, adolescente cheio de espinhas, publiquei minhas primeiras produções literárias.”
O ziguezague seguinte o fez pensar na Porto Alegre da década de 1940, ano em que publicou seu primeiro livro, A rua dos cataventos. Era uma cidadezinha provinciana, mas, por isso mesmo, ideal para garimpar, sem pressa, amizades para a vida toda. Amizades como a de Erico Verissimo, o grande nome das letras gaúchas; e a de Henrique Bertazo, responsável pela política editorial da Editora do Globo, que publicava todos os seus livros.
“E que me deu a oportunidade de traduzir Marcel Proust e outros luminares da literatura mundial”, complementou.
Essa reflexão o fez refletir sobre sua própria trajetória enquanto poeta.
“Meus textos estão cada vez mais simples, mais concisos”, admitiu. “Acho que também me tornei uma pessoa mais simples, mais direta que o autor de A rua dos cataventos”.
Em seguida, evocou a magnífica estrofe inicial do soneto que deu nome a seu livro de estreia:
“Da vez primeira em que me assassinaram,/Perdi um jeito de sorrir que eu tinha./Depois, a cada vez que me mataram,/Foram levando qualquer coisa minha.”
Disse para si mesmo, em voz alta:
– Gosto desses versos. Hoje, os publicaria como um poemeto de quatro linhas. Mas bah, o início da última estrofe…
E recitou: “Aves da noite! Asas do horror! Voejai!”
– É isso aí – reconheceu, com um ensaio de sorriso. – Aves da noite voejam, avezinhas voam, tão graciosas, e passarinhos… bem, passarinhos passarinham.
O sorriso abriu-se e o poeta declamou seu Poeminho do contra, que estava nas páginas do Caderno H, recém-publicado pela Editora do Globo:
“Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/
Eles passarão…/Eu passarinho!”
– Hora de passarinhar! – exclamou.
E, transformando-se até sentir o coraçãozinho bater em um peito emplumado, voou até as nuvens que cobriam sua cidade querida.