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Floresta

A mata não era impenetrável, ou este conto acabava aqui

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

A mata não era impenetrável, ou este conto acabava aqui. Penetrável, obstáculo transponível, mas com extrema dificuldade. Árvores altas e cheias de espinhos, que pareciam mandacarus transplantados da caatinga, conviviam com gigantes cobertos de lianas, talvez trazidos sem escalas da floresta amazônica. Cresciam junto ao que se assemelhava a baobás africanos – uma sobreposição de exemplares de biomas diferentes que enlouqueceria qualquer naturalista. Junto ao solo, uma vegetação rasteira que quase impedia o avanço. Mas, como foi dito antes, não de todo. E os desbravadores desbravavam, os rompedores rompiam, e o resto seguia na trilha dos caminhantes, que abriam caminho ao andar.

Quantos eram? Impossível saber. Naquele grupo, algumas centenas, mas podia haver outros (havia), que a mata parecia não ter fim. Avançavam como lemingues, floresta adentro, sem roupas, sem um machado, um machete, uma faca sequer, dilacerando com as mãos os cipós que lhes tolhiam o avanço. Um avanço necessariamente lento, em tais condições. Seus pés sangravam, feridos por espinhos – sandálias grosseiras, feitas de folhas amarradas com cipós, seriam a primeira peça de vestuário a ser incorporada por esse punhado de representantes da espécie humana, estranhos em terra estranha. Seguiam quase em silêncio, pois quem, ou o quê, os havia lançado na floresta tivera o cuidado de reunir indivíduos que falassem línguas diferentes, à exceção das poucas mães com seus filhos. (Sem dúvida, alguns dominavam mais de um idioma, talvez fossem úteis no futuro mas, em sua maioria idosos fisicamente débeis, eram quase um estorvo no momento.) Não sentiam fome, havia uma profusão de frutas ao alcance da mão, mas a sede os castigava.

Alguns lembravam vagamente que certos bambus e outras plantas como cactos continham água em sua polpa; mas ainda não os tinham encontrado. Por sorte – ou por desígnio dos deuses –, quando estavam à beira do esgotamento, depararam-se com uma clareira cortada por um regato. Todos beberam até quase rebentar, depois caíram por terra, tentando recuperar a forças. Mas não todos, houve quem selecionasse pedras, um arremedo de defesa contra predadores. E alguns dentre os desbravadores, recordando o que sabiam sobre a pré-história, bateram pedras uma contra a outra, tentando tirar lascas, que lhes permitiriam cortar mais facilmente os cipós. Pois continuar o avanço era preciso. Lemingues não têm escolha.

Todos sobreviveram àquela primeira noite. E, com os machados de mão, feitos de pedra lascada, a penetração pela floresta ficou um pouquinho menos penosa. Assim, foram mais rápido – o que esgotou doentes, crianças e idosos. Quando chegaram à clareira seguinte, com o seu riacho, alguns mal conseguiram beber, antes de desmaiar.

Ao alvorecer, havia diversos cadáveres por terra. Indivíduos que tinham sido líderes religiosos precipitaram-se para os corpos, tentando expressar, em seu próprio idioma e por mímica, a crença na vida após a vida, a versão de cada um sobre a salvação, procurando retomar seu antigo ofício. Ficaram cruelmente desapontados, pois, aos primeiros raios do Sol (havia um Sol), as carcaças viraram pó. Religiões são indissociáveis de rituais da morte, que pedem cadáveres e enterros. Assim, havia poucas chances de que se desenvolvessem, pelo menos de imediato, no mundo da floresta, no mundo-floresta.

Quando chegou o momento de retomar o avanço, muitos se negaram a partir. Foi a primeira dissidência. Haveria outras, a cada clareira alcançada.

A caminhada pela mata era sempre igual, sempre difícil, mas nas clareiras algumas coisas estavam mudando. Se os rituais da morte eram impossíveis, logo se multiplicaram as crenças nos espíritos da floresta: o espírito do córrego, que lhes dava a vida; espíritos do vento, das árvores frutíferas, da caça, dos animais abatidos e tantos outros. Reverenciá-los não exigia muito, bastava um pensamento, uma flor deixada em qualquer parte. Mais tarde alguns desses espíritos se tornariam divindades – e os antigos servidores do deus único teriam uma nova chance de exercer seu ofício, dessa vez com o politeísmo.

E também surgiu a poesia. À semelhança de sua versão terrena, nasceu em chave épica, evocando a odisseia do avanço pela floresta e a habilidade dos caçadores. Destinava-se a ser recitada à noite, junto à fogueira, ou a acompanhar os grupos que tentavam abater animais. Para transmitir emoções, os homeros das clareiras recorriam a muitas onomatopeias – o crac dos cipós sendo rompidos, o zzzz dos insetos que os importunavam, o rosnar dos predadores e por aí vai. Também usavam e abusavam da mímica, recurso para superar diferenças linguísticas. Além disso, os vates do mundo-floresta procuravam seus companheiros de outros idiomas, tentavam conversar com eles, conhecer as palavras mais fortes, melodiosas e expressivas de sua fala. Desse modo, foram plasmando uma nova língua, rude, inicialmente de algumas centenas de palavras, mas capaz de transmitir emoções e atitudes básicas – medo, ódio, desejo, reverência pelos espíritos, tristeza, alegria, solidariedade entre os caçadores. E também a preocupação com as crianças,
partilhada pelo grupo, não apenas por suas mães biológicas. O amor erótico e/ou romântico não era um desses termos pioneiros.

Não foram essas as únicas transformações. Houve outras, talvez menos gratificantes.

Algum tempo depois, um punhado de pessoas, todas jovens, todas endurecidas pelos desafios do avanço, esbarrou com o mar. Esbarrou, pois não tinha seguido o curso de um rio, os riachos existentes em cada abertura na massa vegetal mergulhavam no solo pouco adiante. Não havia praias nem mangues, nenhuma transição entre a mata e a água, um passo no verde, o passo seguinte no líquido cinza. Eram como peças justapostas de um jogo de armar. E, do outro lado – viam claramente, o braço de mar não era muito extenso –, mais floresta. Alguns decidiram construir uma jangada, lembravam-se vagamente como fazê-lo. Outros xingaram em suas línguas de origem e voltaram para a última clareira deixada para trás.

Na mesma ocasião, a terceira clareira recebia sua leva inicial de visitantes. Eram oito pessoas, todos homens, um de meia idade, outro idoso, e seis jovens fortes e de expressão desafiadora. A nudez ficara para trás, vestiam roupas de peles e estavam armados com pedras, machados de mão e porretes.

– Somos representantes da Horda da Clareira – proclamaram os homens mais velhos, em vários idiomas. – Viemos para oferecer-lhes uma aliança. Se aceitarem, vai surgir um grupo mais forte, a Horda das Clareiras, capaz de subjugar os demais grupos; se não aceitarem… – não completaram a frase, não havia necessidade.

Ia começar tudo de novo.

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