Mãe Coragem
A maternidade tem um jeito próprio de medir o tempo
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A maternidade tem um jeito próprio de medir o tempo.
Não usa relógio,
usa o tamanho dos sapatos deixados na porta,
a altura marcada na parede da sala,
o jeito novo de pronunciar as palavras.
Vejo minha filha crescer
como quem assiste a uma manhã nascer devagar
e, ainda assim, rápido demais.
Cada dia acrescenta um gesto,
uma frase inteira onde antes havia sílabas tortas.
E meu coração, que queria só mais uma vez
ouvir aquela palavra dita errada,
precisa aprender a aplaudir
a versão correta.
Há um paradoxo silencioso
em desejar o desenvolvimento
e, ao mesmo tempo,
querer deter o instante.
Querer que ela avance
e que permaneça.
A maternidade prega peças.
De repente, no meio da tarde comum,
ela olha para mim e diz, sem motivo aparente:
“obrigada, mamãe”.
E algo se rompe dentro do peito,
não de dor
mas de excesso.
Como se o amor não coubesse
na forma exata do corpo.
Eu sempre achei
que não era dessas mães heroicas,
capazes de grandes feitos.
Sempre me vi prática, razoável,
quase contida.
Até o dia em que meu corpo
saltou sozinho
para a frente da panela
que ameaçava entornar água quente.
Não houve cálculo,
não houve discurso.
Houve apenas um impulso
antigo como o mundo.
Descobri, ali,
que o amor de mãe não é barulhento.
Ele é imediato.
Ele é músculo, é reflexo,
é escudo invisível.
E enquanto ela cresce,
rápida demais para o meu coração,
lenta o suficiente para que eu acompanhe,
aprendo que maternidade
é esse lugar estranho
onde a gente quer que o tempo corra
e, ao mesmo tempo,
implora para que ele espere
só mais um pouquinho.