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Memória maçônica

A pátria ainda está em obras

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Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Todo 7 de setembro, o Brasil retorna às margens do Ipiranga. A cena, fixada pela famosa pintura de Pedro Américo e repetida nos livros escolares, concentra em um gesto aquilo que foi uma construção longa e conflituosa. A Independência não nasceu apenas do brado do aventureiro príncipe bragantino. Antes dele, projetos de país já circulavam por jornais, gabinetes, associações e lojas maçônicas.

Nesse processo, a maçonaria serviu como espaço de articulação para homens que, embora unidos pela emancipação, divergiam sobre os caminhos do novo Estado. José Bonifácio de Andrada e Silva, primeiro grão-mestre do Grande Oriente do Brasil, defendia uma transição conduzida com autoridade e unidade territorial. Joaquim Gonçalves Ledo representava uma corrente mais liberal, favorável à convocação de uma Constituinte. Em agosto de 1822, sob a presidência de Ledo, uma sessão maçônica da loja Comércio e Artes, no Rio de Janeiro, debateu abertamente a separação de Portugal. Pouco depois, o príncipe regente, iniciado na ordem sob o nome simbólico de Guatimozin, assumiria o título de grão-mestre.

Seria exagerado afirmar que a maçonaria fez sozinha a Independência. Também seria erro apagar sua notável presença. As lojas não substituíram as ruas, as províncias, os conflitos militares, os interesses econômicos ou a ação da Coroa. Foram, contudo, oficinas de ideias e alianças, nas quais parte importante do projeto emancipador ganhou forma.

A lembrança maçônica do 7 de setembro não deve alimentar vaidades institucionais, mas renovar um compromisso. Independência não é apenas romper vínculos externos: é construir uma nação em que a liberdade não seja privilégio, a igualdade não permaneça promessa e a fraternidade não se limite aos discursos.

Esse compromisso exige também permanente vigilância sobre nossa política externa. A soberania conquistada em 1822 não é um patrimônio que se conserve sozinho. Um país pode manter bandeira, território e hino e, ainda assim, permitir que sua vontade seja diminuída pela dependência econômica, tecnológica ou estratégica. O Brasil não deve aceitar posição menor no concerto das nações, nem permitir que interesses alheios decidam o destino de suas riquezas.

Preservá-las não significa fechar o país ao mundo, mas relacionar-se com ele sem submissão. Cooperar não é submeter-se; integrar-se não é renunciar à própria vontade. Nossos recursos naturais, nossa energia, nosso território e nossa capacidade produtiva devem servir, antes de tudo, ao desenvolvimento interno, à redução das desigualdades e à prosperidade dos brasileiros.

Mais de dois séculos depois, o Brasil ainda está em obras. Talvez seja esta a melhor homenagem dos maçons à Pátria: permanecer vigilantes para que nossa Independência jamais seja ameaçada e continuar trabalhando, pedra sobre pedra, para que o edifício nacional seja mais soberano, menos injusto e verdadeiramente digno de todos os brasileiros.

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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é advogado e professor universitário, escritor, poeta e editor-executivo de Notibras.

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