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Direita e esquerda

A política brasileira não cabe em laboratório

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Autor/Imagem:
João Zisman - Foto Editoria de Artes/IA

O Brasil nunca foi um país de manuais ideológicos. Sempre foi um país de gente. De lideranças fortes, de simpatias e antipatias, de entusiasmos passageiros e cansaços recorrentes. Quem tenta encaixar nossa política em categorias perfeitamente desenhadas quase sempre termina entendendo menos do que pretende explicar.

Li recentemente um artigo que comentava um estudo segundo o qual o bolsonarismo teria consolidado um bloco conservador sustentado por alinhamento ideológico e polarização afetiva¹. A hipótese ajuda a organizar o debate. O problema é que o Brasil raramente se comporta de forma organizada. Por aqui, a política costuma mudar de rumo como trânsito em dia de chuva: ninguém planejou exatamente, mas todo mundo precisa seguir andando.

Houve, sim, fortalecimento do campo conservador. Isso é visível. O exagero está em tratar esse movimento como algo rígido ou definitivo. O que se acumulou nos últimos anos foi frustração. Econômica. Institucional. Moral. E frustração não tem endereço ideológico fixo. Ela apenas procura onde pousar.

No Brasil, esquerda e direita nunca foram compartimentos fechados. Funcionam mais como referências do que como identidades permanentes. O eleitor mistura convicções com naturalidade. Pode defender valores conservadores e exigir políticas sociais ao mesmo tempo. Pode rejeitar um partido sem necessariamente aderir ao outro. Não somos laboratório de pureza ideológica. Somos uma democracia ruidosa, contraditória e profundamente humana.

O ponto mais sensível é outro: a polarização afetiva. Não se trata apenas de discordar. Trata-se de desconfiar. O adversário deixa de ser alguém com outra visão e passa a ser percebido como ameaça constante. A política deixa de ser disputa e vira torcida organizada. E torcida organizada raramente se interessa por argumentos. Prefere o grito que confirma certezas.

Quando isso acontece, a moderação perde espaço. A indignação mobiliza mais do que a ponderação. O espetáculo ocupa o lugar da negociação. Governar passa a exigir presença de palco quando o país precisa, na verdade, de responsabilidade.

Ainda assim, mesmo nesse ambiente tensionado, novas lideranças de centro ou moderadas começam a surgir. Isso importa. Cabe a elas reduzir a temperatura sem abrir mão da firmeza. Não é neutralidade confortável. É coragem para negociar justamente quando o aplauso fácil pede confronto.

O Brasil já atravessou outros períodos de radicalização emocional. Nossa política nunca foi linha reta. Mais de uma vez foi considerada consolidada antes de se reorganizar diante de novas circunstâncias econômicas e institucionais. Quem aposta em rigidez permanente costuma ser surpreendido pela realidade.

Talvez o desafio de 2026 não seja descobrir quem está à esquerda ou à direita, mas decidir se continuaremos tratando divergência como guerra cultural ou como parte inevitável da vida democrática.

A política brasileira não cabe em laboratório. É terreno vivo. E terreno vivo exige menos experimento ideológico e mais responsabilidade.

¹ Rennó, Lucio; Moreira, Thiago; Tamaki, Eduardo Ryo. Beyond Electoral Fortunes: The Consolidation of a Far-Right Alignment in Brazil. Journal of Politics in Latin America, 2026.

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