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O escritor e suas personagens

A protagonista e a musa

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

É bem conhecida a peça teatral Seis personagens à procura de um autor, de Pirandello. Pois bem, cheguei à conclusão de que os personagens não apenas procuram um autor para ganharem existência; tão logo a conseguem, buscam avidamente o modelo que os inspirou – e, quando o encontram, muitos deles empinam o nariz, fazem beicinho, dão um muxoxo ou uma rabissaca – supremo gesto nordestino de desdém –, julgando-se melhores que os originais.

Tive a prova disso recentemente. Escrevi um texto curadoresco de umas cinco páginas para uma exposição internacional de arte que terá produções de minha musa (nome omitido para evitar mau-olhado, olho gordo e coisinhas do mesmo jaez). Modéstia à parte, ficou bom, ela achou o texto maravilhoso e confessou que era a mais bela declaração de amor que já havia recebido. Deuses, por que ela teve de usar essas palavras?

Logo que souberam da infeliz afirmação, meus personagens convocaram uma assembleia geral para discutir a relação.

Parêntese: não sei o que se passa com autores que têm milhares de personagens. Eu não tenho, e no meu apartamento convivem, em alegre promiscuidade, todos os que já entraram nos meus escritos: sereias, marinheiros aqueus, ninfas, vampiras mignons, gatos e, evidente, Shoshana. Foi ela, personagem inspirada em minha musa e protagonista de um livro que publiquei, quem teve a iniciativa de convocar a assembleia DR.

Shoshana foi a primeira a tomar a palavra.

– Irmãos personagens, quero denunciar um atentado à nossa existência – e esticou acusadoramente o dedo em minha direção. Tomou fôlego após a dramática abertura e prosseguiu.

– Ele escreveu muitas páginas sobre gatos – e apontou para os cinco –, sereias, quer dizer, sobre todos nós, irmãozinhos e irmãzinhas – acrescentou sorrindo, tentando ganhar a audiência. – Sobre mim, escreveu um livro INTEIRO! – fungou e fingiu enxugar uma lágrima inexistente. – E agora a musa dele diz que as cinco pagininhas de um texto foram a mais bela declaração de amor que ela já recebeu. Pra mim foram mais de 40 páginas, e nunca falei algo parecido!

Percebendo que havia uma tonelada de despeito no ar, a maioria dos personagens retirou-se para cuidar de sua vida. Ficaram apenas as sereias e os gatos – bichos notoriamente curiosos – e, claro, Shoshana.

Pantera e Sid lambiam os beiços olhando as peixinhas. Antes que acontecesse alguma desgraça, decidi intervir.

– Parem com isso já! – falei enérgico, olhando feio para os dois aprendizes de canibal. – Eles disfarçaram lambendo o pelo, como os gatos costumam fazer.

Sempre combativa, Pantera reagiu:

– Entendo você escrever sobre sereias, elas parecem deliciosas – e dirigiu-lhes um sorriso faminto, mostrando as presas. – Mas você perde seu tempo escrevendo sobre humanos, especialmente essa aí – e apontou desdenhosa a patinha na direção da indignada Shoshana.

– Nos cinco somos celebrities e você é nosso escravo – prosseguiu a pequena fera negra. – Só devia escrever sobre nós!

– Ele deu nome aos gatos, enquanto nós três ganhamos apenas números – interveio Sereia 3, lastimando-se com as irmãs. Todos na talassa e até os aqueus e os troianos devem estar rindo da gente!

Conciliador, falei que colocaria belos nomes aqueus, troianos ou talassescos nas sereias em futuras edições do conto. Também prometi escrever as biografias das cinco celebridades felinas que moram comigo. Depois falei baixinho a Shoshana:

– Melhor terminar a assembleia DR e continuar o papo só nos dois.

Ela fungou mas acabou concordando.

Minutos depois, quando os demais personagens já haviam sumido (se eles estivessem presentes o tempo todo, ninguém andava pelo apartamento), falei a Shoshana:

– Você enlouqueceu? Com ciúmes de minha musa? Ela é você, você é ela!

– É mesmo? – la muy maleva riu de minha simplificação. – Ela é apenas a musa, a inspiradora, enquanto eu sou a protagonista da história. – Tomou fôlego e prosseguiu. – Como é mesmo o nome do livro? Minha Musa ou Shoshana? E não me venha com aquela bobagem platônica de ela ser o original, perfeito, e eu a cópia imperfeita (ela havia aprendido um pouco de filosofia de orelhada). – E desembestou em porteño – Ambas somos reales, en planos distintos por supuesto, ambas somos imperfectas, lo sabe Dios, pero, carajo, yo soy la protagonista del libro!

Paciente, lembrei que o nome Shoshaha fora adotado porque eu não ia usar o nome de minha musa num relato ficcional. Era este o ponto: quando eu lançava pessoas “reais” em meus escritos, eles se tornavam personagens ficcionais, a quem eu atribuía comportamentos, ações e ideias que não eram necessariamente os deles.

Shoshana sorriu desdenhosa.

– Quando você fala em pessoas “reais”, escuto as aspas. O que é real, o que é ficcional? E apelou: – Depois de tudo que a gente fez naquele hotel… – murmurou, sedutora.

– Eu fiz com a minha musa! – respondi ríspido.

– Eu lembro o que fiz, e foi com alguém muuuito parecido com você – zombou. E tentou me apaziguar. – Você também é personagem, somos ambos protagonistas do nosso relato, ao passo que o seu outro eu, o bobão, é autor e a perua não passa de uma musa. – E concluiu triunfante:

– Além do mais, personagens são mais bem acabados do que pessoas “reais”. Por exemplo, tomei banhos a dois com um personagem igualzinho a você. Fora disso, não tomei um banho para tirar o cascão uma só vez. E só falei coisas sensuais, inteligentes, engraçadas ou bonitinhas, aposto que sua musa às vezes diz besteiras e baba no sutiã.

E, com essas palavras, a personagem Shoshana partiu, vitoriosa.

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