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Vozes da Literatura

A sensibilidade literária da escritora Jovanna Pin

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A coluna Vozes da Literatura recebe hoje a escritora, jornalista e publicitária Jovanna Pin, uma autora que define a si mesma como uma eterna aprendiz e cujo local de fala reside exatamente onde seu coração decide se expressar. Inspirada pelo conterrâneo cachoeirense Rubem Braga, ela elegeu a crônica urbana como seu gênero favorito por sua capacidade única de gerar conexões e provar ao leitor que nenhuma experiência humana é inteiramente individual. Equilibrando diariamente o rigor factual do jornalismo com a sensibilidade sentimental da poesia, Jovanna enxerga as técnicas de escrita não como amarras, mas como estímulos fundamentais para reinventar constantemente sua própria criatividade e sustentar suas narrativas.

Nesta entrevista exclusiva, a autora analisa com maturidade os impactos e paradoxos do cenário contemporâneo, alertando sobre os desafios da presença digital e o risco de a criatividade ser sufocada pelo uso excessivo de telas. Com uma bagagem profissional que transita pelo marketing político e pela assessoria parlamentar, ela revela como sua atuação na comunicação alimenta sua sensibilidade literária, transformando a escrita em um espelho capaz de extrair aprendizados até das situações mais adversas. Acompanhe uma conversa franca sobre o poder do feedback no refinamento textual, a urgência de redes coletivas de apoio em uma era de esgotamento mental e a certeza de que toda leitura — da literatura mais complexa ao rótulo de um xampu — é capaz de expandir o nosso repertório.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Nenhuma leitura é em vão, desde o rótulo de um xampu até a literatura mais complexa do mundo, todas elas nos ensinam de alguma forma. A leitura crítica aumenta o repertório, proporcionando uma visão nova sobre assuntos que às vezes eu lia por sentimento.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Eu gosto de ler e entender todas as linhas de pensamentos possíveis, mesmo as que não “me interessam” (rsrsrs), de alguma forma elas são interessantes sim.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A crônica é meu gênero textual preferido, através dela existe uma conexão. O leitor descobre que nenhuma experiência é individual, ela só não tinha sido enxergada por outro olhar e colocada em outras palavras. A crônica urbana carrega uma sensibilidade essencial, que todo leitor deveria conhecer mesmo que não seja do estado ou da cidade do escritor. Como cachoeirense, eu me inspiro e gosto muito do Rubem Braga.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Sendo escritora e trabalhando como jornalista é como equilibrar pratos, existe uma distância entre o fato e o tom poético que os poemas e cronistas abordam. A matéria jornalística trabalha com fatos, cada uma das minhas poesias carrega o fato de forma poética e sentimental.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Eu nunca escrevi ficção, mas já li várias. Esse gênero nos leva a uma nova realidade, nos transporta para diversos cenários. Os jovens devem receber monitoração dos pais em relação às leituras e os adultos que se refugiam no gênero devem ter cautela com a questão psicológica.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Com certeza as técnicas estimulam a minha criatividade, fazendo com que eu esteja sempre reinventando meu jeito de escrever. A diferença do escritor profissional e o autor amador está na forma que cada um utiliza as técnicas de escrita e na sustentação da narrativa.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Eu sou eterna aprendiz, meu local de fala está onde meu coração decidir falar. Este lugar será onde vou falar. Minha intenção é gerar conexão com cada leitor, que cada um se identifique de alguma forma com meus textos. Tenho conseguido, sempre me perguntam quando vou escrever e o que vou escrever na próxima.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Eu concordo, acredito que não existe conhecimento melhor ou pior, conhecimentos são diferentes. A partir do momento que você tem uma interação com alguém, você adquire e transmite conhecimentos. No cenário atual isso é essencial, estamos vivendo numa era de esgotamento físico e mental, com certeza ajudaria.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Cada feedback nos aproxima da nossa melhor versão, seja ele positivo ou não. Com certeza a troca de experiências nos aperfeiçoa.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Com certeza os escritores da geração atual e das próximas terão acesso rápido ao conhecimento que os escritores das demais gerações demoraram para adquirir. Com o acesso livre a tecnologia, esses jovens escritores podem ter sua criatividade reduzida pelo uso excessivo de telas, ou ter ainda mais vontade de escrever. O impacto da tecnologia é nítido, as crianças e os adultos dificilmente leem livros físicos.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

A escrita criativa pode ser espelho e fuga! O meu trabalho com a escrita criativa me dá uma nova visão de uma situação que antes era ruim. Acredito que esse modelo de escrita faz com que possamos extrair um aprendizado a partir de tudo.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Eu sou publicitária de formação, já atuei em várias áreas da comunicação. Atualmente trabalho com jornalismo, e cada matéria que eu escrevo me aproxima ainda mais das crônicas e poesias.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Como publicitária, eu enxergo a necessidade de criar presença digital como um grande desafio. Pode ser que o escritor descubra sua nova versão através do mundo digital ou se perca neste mesmo mudo. Para não perder sua identidade, princípios e conceitos é necessário trabalhar uma comunicação assertiva e clara para que o seu leitor te encontre no mundo digital.

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Jovanna Pin, Publicitária com experiência em Marketing Político e Assessoria Parlamentar, atua na produção de matérias comerciais voltadas ao posicionamento de marca de empresas e serviços.

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