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Julgamento

A sociedade dos pequenos juízes

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Tenho uma teoria: todo mundo carrega dentro de si um pequeno juiz.

Alguns o mantêm em silêncio.

Outros lhe dão acesso à internet.

E aí temos um problema.

Porque basta uma pessoa fazer alguma coisa diferente para começar o julgamento.

Separou? Alguma coisa aconteceu.

Não separou? Está infeliz.

Mudou de emprego? Está fugindo.

Ficou no mesmo emprego? Não tem ambição.

Viaja? Ostenta.

Não viaja? Não aproveita a vida.

Casou? Perdeu a liberdade.

Não casou? Tem algum problema.

É uma sociedade admiravelmente preparada para encontrar defeitos em qualquer escolha.

Durkheim talvez nos lembrasse que não somos apenas indivíduos isolados: somos atravessados por normas, expectativas e sanções sociais. O curioso é que hoje muitas dessas sanções não precisam mais de uma instituição. Basta um grupo de WhatsApp.

E há algo ainda mais interessante.

Nós mesmos participamos disso.

Criticamos o julgamento alheio enquanto julgamos outra pessoa.

Defendemos a liberdade individual enquanto perguntamos por que fulano está vivendo daquela maneira.

Pregamos empatia com uma severidade impressionante.

A moral contemporânea tem dessas contradições.

Talvez porque seja mais fácil defender princípios abstratos do que praticá-los quando a vida real aparece.

Bourdieu diria que nossos gostos, escolhas e maneiras de existir nunca são tão individuais quanto imaginamos. Há classe, trajetória, educação, disposições, oportunidades.

Nós chamamos de “jeito de ser”.

A sociedade chama de socialização.

E, no meio disso tudo, seguimos acreditando que nossas escolhas são exclusivamente nossas.

Talvez a maturidade consista justamente em perceber essas estruturas sem transformar essa percepção em desculpa para tudo.

Somos condicionados, mas não somos completamente determinados.

Somos responsáveis, mas não somos absolutamente livres.

Somos indivíduos, mas nunca existimos fora do mundo social.

É complicado.

E talvez seja por isso que tanta gente prefira frases prontas.

Frases prontas não têm contradições.

A vida tem.

E, infelizmente, não aceita edição.

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