Curta nossa página


Vozes internas

A solidão quer o papel principal

Publicado

Autor/Imagem:
Thalita Delgado - Francisco Filippino

O que apavora na solidão? Não me venham com esse negócio de solitude. É uma baita palavra bonita, criada pra gente se sentir mais confortável com o silêncio. Mas o fato é que, sozinhos, no silêncio, sem o sol, sem o som do WhatsApp, sem as falas sinceras dos amigos, o que nos resta? As vozes altas da nossa cabeça, que nos assustam e apavoram.

À noite, elas são absurdamente piores, porque, além das vozes, há o escuro. E temos de confessar: desde criança, temos medo do escuro.

Ando usando uma dessas luminárias mequetrefes que meu pai comprou na Shopee e me deu de presente pra iluminar o quarto. Cafona? Muito! Infantil? Talvez! Sincero? Totalmente sincero! Acordo à noite com frequência, e olhar, sem luz nenhuma, para os cinco travesseiros à minha volta é, no mínimo, horripilante.

Pra piorar, há morcegos no telhado da minha casa, porque meu pai inventou de fazer um teto de madeira com três metros de altura. Eles batem nos canos à noite e, como se fosse pouco, nos dias de pânico parecem resolver fazer uma rave.

As solidões assustam. Solidões, porque, no fundo, não é uma só. É a solidão de levantar sozinha pra ir ao banheiro à noite; é a solidão de ir ao bar tomar cerveja; é a solidão de ver a cama tão grande — e a sala também; é a solidão de viajar sozinha, com mais quatro lugares disponíveis no carro; é a solidão de ver as barracas da praia cheias e ter de pedir a alguém que tome conta da sua mochila; é a solidão de fazer o almoço pra um e sentar à mesa pra comer absolutamente em silêncio, enquanto o mundo todinho acontece ali fora.

A solidão assusta, apavora, tira o sono, a alegria e a confiança. Às vezes, por causa dela, nos rendemos às coisas médias que chegam até a gente. Até a besteira na boca do outro se torna inteligente e interessante porque, afinal, tudo é mais interessante do que as vozes que surgem quando a solidão assume o papel.

E que papel ridículo o dela, que insiste em ser atriz principal quando deveria ser coadjuvante.

Mas sabe? Às vezes, acho que ela tem razão de querer o papel principal. Porque, ora bolas, a solidão acompanha a gente a vida inteira: só há uma maca no hospital, só há um lugar no túmulo, só dá pra subir escadas uma pessoa por vez, só há um vaso sanitário em qualquer banheiro.

Só dá pra ser amigo da solidão, porque os inimigos já estão aqui fora…

Pensando bem, aqui fora, em carne e osso, e aqui dentro, em linhas imaginárias e invisíveis.

……………………

Thalita Delgado (@tha_delgado) é jornalista, publicitária e empresária. Também se expressa como crocheteira e escritora. Apaixonada por música, livros e pelas pequenas sensibilidades do cotidiano, lançou, em 2024, seu primeiro livro, “Sorrindo e Chorando — porque é isso que a gente faz”, pela Editora Autoria.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.