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Não significa silêncio

A solidão também faz barulho

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Quando pensamos em solidão, imaginamos silêncio.

É um erro.

A solidão faz muito barulho.

Ela aparece nas notificações que nunca chegam da pessoa que esperamos.

Na mesa do restaurante ocupada por apenas um prato.

Na vontade de contar uma boa notícia e não saber exatamente para quem telefonar.

Ela se esconde até nas festas.

Especialmente nas festas.

Há algo profundamente moderno na capacidade de sentir-se sozinho em meio a centenas de pessoas.

Talvez porque presença física nunca tenha garantido encontro.

Podemos compartilhar o mesmo elevador, o mesmo escritório, a mesma sala de aula e, ainda assim, permanecer desconhecidos.

As cidades cresceram.

Os apartamentos diminuíram.

As agendas ficaram lotadas.

As conversas encolheram.

Curiosamente, nunca tivemos tantas formas de comunicação.

E nunca foi tão raro encontrar alguém disposto a ouvir sem interromper.

Escutar tornou-se um luxo.

Responder tornou-se automático.

Há dias em que não precisamos de soluções.

Precisamos apenas de alguém que permaneça.

Sem transformar nossa dor em competição.

Sem responder toda história com outra história.

Sem consultar o celular enquanto fingimos conversar.

A sociedade aprendeu a medir produtividade, desempenho, alcance, engajamento.

Mas continua sem saber medir uma ausência.

Quantas pessoas sentem falta de alguém enquanto caminham pela cidade?

Quantas sorriem apenas por educação?

Quantas voltam para casa desejando, secretamente, uma conversa sem pressa?

Não sabemos.

Porque a solidão raramente faz manifestações públicas.

Ela trabalha em silêncio.

Ou melhor.

Ela trabalha escondida dentro do barulho cotidiano.

Talvez por isso um gesto simples ainda possua tanta força.

Olhar nos olhos.

Perguntar sinceramente como alguém está.

Esperar a resposta.

E permanecer.

No fim das contas, talvez a maior riqueza que possamos oferecer uns aos outros seja justamente aquilo que o mercado não consegue vender, o algoritmo não consegue recomendar e a pressa insiste em roubar: uma presença verdadeira.

Porque algumas pessoas não precisam de conselhos.

Precisam apenas descobrir que ainda existem lugares onde podem existir sem precisar provar absolutamente nada.

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