Arquivos de Epstein
A sombra do poder e a falta de reação
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A revelação dos chamados arquivos de Epstein expôs um conjunto de informações tão repugnantes que beira o impublicável. Estamos falando de crimes gravíssimos, envolvendo tráfico de pessoas, exploração sexual de crianças e adolescentes e uma rede de abusos que escancara a face mais sombria do poder e da impunidade. O material é de tal modo abjeto que qualquer sociedade minimamente comprometida com os direitos humanos deveria reagir com indignação coletiva.
No entanto, o que se vê é um silêncio constrangedor de grande parte da imprensa nacional e internacional. Um tema dessa gravidade não pode ser tratado como nota de rodapé, mas é exatamente isso que está acontecendo: a repercussão é tímida, fragmentada, quase envergonhada. Quando escândalos muito menores atingem adversários políticos, a cobertura costuma ser ampla e contínua. Neste caso, porém, o tratamento é cauteloso demais para algo que exige firmeza e transparência.
Há ainda um elemento político impossível de ignorar: existe envolvimento direto do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nos documentos e nas conexões reveladas. Mesmo assim, para a direita que o sustenta, parece que tudo é permitido. Não há comoção, não há indignação organizada, não há ruptura de apoio. O padrão é a negação, o relativismo ou o completo silêncio.
O mais perturbador é perceber que quem apoia Trump continua apoiando, inclusive aqui no Brasil, como se esses fatos não existissem ou não fossem relevantes. Crimes contra crianças e adolescentes deveriam ser uma linha intransponível para qualquer projeto político. Quando essa linha é ignorada, o que se revela não é apenas um escândalo jurídico, mas uma crise moral profunda.
O silêncio diante dos arquivos de Epstein não é neutro: ele é uma forma de conivência. E a falta de reação pública mostra que, para certos setores, a lealdade política vale mais do que a defesa da dignidade humana. Isso diz muito menos sobre os documentos em si e muito mais sobre o tipo de sociedade que se aceita construir quando se escolhe não ver.