Curta nossa página


Uma lenda do deserto

A tenda dos beduínos que não cria sombra

Publicado

Autor/Imagem:
Paulus Bakokebas - Foto Editoria de Artes/IA

O deserto não chama pelo nome. Ele chama pelo silêncio. Fui avisado ainda na cidade: “Não atravesse as dunas na lua cheia.” Disseram que naquela fase os véus ficam finos, e aquilo que não é humano caminha com mais liberdade. Sorri como quem não acredita em histórias antigas — erro comum entre homens que ainda não foram provados.

No terceiro dia de travessia, o vento mudou. Não era tempestade. Era direção. Os beduínos dizem que o vento tem intenção. E quando ele sopra sempre do mesmo lado, não é o acaso — é convocação.

Caminhei até o cair da noite. Foi quando vi a tenda. Sozinha. Negra. Imóvel. E estranhamente… não projetava sombra alguma sob a lua. Aproximei-me.

Do lado de fora, pendia um bule tradicional de café, como os que já vi nas tendas de hospitalidade do deserto. O cheiro era amargo, profundo. Ali, lembrei da velha tradição: jamais recusar café no deserto. Recusar é ofensa. Aceitar é compromisso.

Entrei. Lá dentro havia apenas um velho. Ou algo que se parecia com um. Seus olhos não refletiam a chama da lamparina.

— Você atravessou sem permissão, ele disse.

A voz não ecoava. Afundava.

Sentei-me. Ele serviu o café em três movimentos lentos — como manda o costume beduíno: o primeiro pela paz, o segundo pela confiança, o terceiro pelo destino. No terceiro gole, o mundo inclinou. Não vi mais a tenda. Vi o deserto por dentro.

Dunas como espinhas dorsais do tempo. Ossos de caravanas soterradas. Ecos de nomes esquecidos. Homens que enlouqueceram por amor, como Majnun, vagando eternamente entre miragens. Espíritos feitos de fogo sem fumaça, descritos no Alcorão, atravessando redemoinhos como serpentes invisíveis.

— Você acredita nos jinn?, perguntou o velho.

Não respondi. Ele sorriu.

— Eles acreditam em você.

O ar ficou mais denso. Percebi então que não era hóspede. Era avaliado. Entre os beduínos há uma crença antiga: o deserto inicia aqueles que ousam cruzá-lo sozinhos. Alguns voltam poetas. Outros voltam silenciosos. Alguns não voltam.

— O que você busca?, ele perguntou.

Demorei a responder, porque até ali eu não sabia. Talvez buscasse uma história. Talvez buscasse a mim mesmo. Talvez buscasse algo que a cidade havia arrancado.

O velho levantou-se. Pela primeira vez notei que seus pés não tocavam a areia.

— O deserto não dá respostas, disse. “Ele remove o que sobra.”

A lamparina apagou. Acordei ao amanhecer, deitado na areia fria. Nenhuma tenda. Nenhum bule. Nenhuma pegada além das minhas. Mas algo havia sido retirado de mim. Medo? Arrogância? Nome?

Desde então, carrego o silêncio como quem carrega uma cicatriz invisível. Aprendi que o deserto não é vazio. É espelho. E que toda iniciação começa quando deixamos de perguntar se a tenda faz sombra — e passamos a perguntar por que nós fazemos.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.