Não há honra em matar
A tragédia de Itumbiara e o legado da violência
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A madrugada desta quinta-feira (12) trouxe uma notícia devastadora. O Secretário de Governo do município de Itumbiara (GO), Thales Naves Alves Machado, atirou contra os próprios filhos. O mais velho, Miguel Araújo Machado, não resistiu. O mais novo permanece internado em estado grave. Após o crime, o pai tirou a própria vida. Informações preliminares apontam que a motivação teria sido uma suposta traição da esposa.
É impossível não sentir indignação e perplexidade. Mais impossível ainda é compreender como, diante de um fato tão brutal, haja quem tente justificar o injustificável. Nas redes sociais, multiplicam-se comentários que falam em “defesa da honra”. Defesa da honra? Que honra existe em apontar uma arma para os próprios filhos? Que honra há em transformar dor conjugal em sentença de morte para crianças?
Não há qualquer honra em matar. Não há honra em ferir, destruir, aniquilar. A ideia de “defesa da honra” é um resquício cruel de uma mentalidade que já deveria ter sido superada. No Brasil, esse argumento foi historicamente utilizado para tentar absolver homens que assassinavam mulheres por ciúmes ou sentimento de posse. Durante décadas, tribunais chegaram a acolher essa tese. Felizmente, ela vem sendo rechaçada de forma mais firme nos últimos anos. Ainda assim, o imaginário social insiste em reproduzi-la.
Diante dos inúmeros casos de feminicídio que assolam o país, é preciso repetir o óbvio: não há honra em matar esposa, companheira ou namorada. Não há honra em transformar frustração, ciúme ou humilhação em violência. Não há honra em agir movido pelo impulso destrutivo.
Também não faz sentido que o município decrete luto oficial pela morte de quem matou os próprios filhos. Luto se decreta por vítimas, por perdas que nos diminuem como comunidade. A morte de Miguel é uma tragédia. A luta pela vida do irmão mais novo é o que deve mobilizar nossa solidariedade. Confundir o algoz com a vítima é inverter completamente os valores que deveriam orientar uma sociedade minimamente justa.
Honra verdadeira é outra coisa. É atravessar a dor sem destruir o outro. É suportar o abandono e até mesmo a traição, sem recorrer à violência. É procurar ajuda quando a cabeça está em colapso. É fazer terapia, tomar antidepressivos se necessário, chorar, sofrer, pedir socorro. Honra está em reconhecer que a dor é imensa, mas não é eterna. Que os momentos mais difíceis passam. Que a vida, apesar de tudo, segue.
Quando alguém escolhe a violência como resposta, não está defendendo honra alguma. Está apenas perpetuando sofrimento. Que essa tragédia sirva ao menos para reforçar uma verdade simples e urgente: nenhuma dor justifica o assassinato. Nenhuma.