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Uma aventura em Évora (Partes I e II)

A trajetória de Cadu Matos em Évora

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Depois de escrever Saudades do Alentejo, decidi levar até vocês Uma aventura em Évora, o relato da porra toda. Foi o meu primeiro texto, escrito e publicado em 2019. É grandinho, será publicado em quatro partes

Uma aventura em Évora – 1

Tudo começou com uma festa na casa de uma brasileira em Lisboa. Não lembro de quem era o apartamento, minha memória está uma lama, mas essas reuniões da, digamos, esquerda festiva (e não tão festiva assim) brasileira em Portugal eram comuns, no ano de graça de 1975.

Eu não era (mais) militante, estava na periferia desse movimento. Fazia em Paris um doutorado na École Pratique des Hautes Études e morava com minha mulher na Maison du Brésil. Meu trabalho acadêmico ia mal, meu casamento idem. Nós dois já havíamos visitado Portugal em 1974, logo após a derrubada do regime pós-salazarista, e ficáramos encantados com a coisa. Então decidi voltar, sozinho, no ano seguinte. Cheguei, vi e me perdi, mergulhei de cabeça na festa móvel que era a Lisboa dos comícios e das bandeiras vermelhas.

E à noite havia outro tipo de festa, muito álcool, algumas drogas, discos de MPB e intermináveis discussões políticas. Foi então que ouvi dois carinhas conversando, não lembro quem eram. Um deles perguntou se o outro aceitaria dar aulas em uma faculdade de Évora, no Alentejo. Para sorte minha, o carinha no 2 recusou. Eu estava perto, entrei no papo, e minutos depois estava com os contatos para iniciar uma carreira de professor universitário. Lembro de havermos dito, o carinha no 2 e eu, que era essencial impor condições de rigor acadêmico e político aos dirigentes da faculdade, antes de aceitar qualquer proposta de trabalho. Mais politicamente correto, impossível. Quanto a ele, não sei; quanto a mim, era uma mentira deslavada, eu venderia a alma para deixar de ser turista e me tornar um intelectual orgânico (Gramsci oblige) de um país em ebulição. Meu tipo ideal, naquele momento, não era Lênin nem Trostky, e sim John Reed. Eu estava decidido a, no mínimo, testemunhar de maneira participativa aqueles dias que abalariam a Europa (cuíca o mundo).

E foi assim que comprei passagem no comboio para Évora e, 1h30 depois, desembarquei no Alentejo. À medida que me afastava da estação, o calor me golpeou, como um soco no peito. Fui criado nas praias fluminenses, e achava que tiraria de letra qualquer verãozinho europeu. Mas o calor vinha da África, momentaneamente amenizado pela brisa das praias do Algarve, para em seguida avançar, querendo vingança, rumo ao Alentejo central. O ar quente e seco tornava difícil respirar; meu relacionamento com a cidade começava mal.

Mas logo me apaixonei pelas casinhas, de telhado vermelho e um branco reluzente ao Sol. As ruas tinham nomes encantadores, como Rua do Imaginário (dos fabricantes de imagens religiosas). Afinal, cheguei à grande praça do Giraldo, bem no centro da cidade, com seus arcos em curva. Alguns desses arcos davam acesso a um misto de botequim e bar, mais sombrio e mais fresco que o exterior. Ele tornou-se um point, um local para preparar minhas aulas e beber imperiais (chopes, para os não iniciados).

Mas nesse primeiro dia não houve imperiais. Continuei a andar e logo cheguei ao centro histórico. Ali, no Largo de Vila Flor (obrigado, Google) ficava a Escola Superior de Estudos Sociais e Económicos Bento de Jesus Caraça, onde eu daria aulas. Fora criada depois que a Revolução dos Cravos levara a faculdade jesuítica existente no local a suspender suas atividades. Era a segunda vez que a Companhia de Jesus se dava mal por ali. As instalações abrigaram a Universidade de Évora – fundada em 1559 e controlada pelos jesuítas até 1759, quando o marquês de Pombal a extinguiu e expulsou os padres.

Junto à Escola Bento de Jesus Caraça, entre outros monumentos magníficos, estavam a Sé de Évora, o antigo Tribunal da Inquisição, a Igreja e Convento dos Lóios e a Biblioteca Pública. Mas o monumento mais próximo, coladinho à faculdade, estava em ruínas. Eram os restos do templo romano de Évora – a única coisa que eu conhecia da cidade, ainda que o chamasse erroneamente, como tanta gente boa, de Templo de Diana. Não era de Diana, era dos meus alunos e meu. Ou logo viria a ser.

Apresentei-me na secretaria, expus minhas credenciais acadêmicas – eu fazia mestrado no Brasil sob a orientação de Francisco Weffort e doutorado em Paris, com Alain Touraine –, fui contratado, soube quando daria minhas primeiras aulas, pra quais turmas, e quanto receberia. O pagamento não era nenhuma maravilha, mas os administradores acrescentaram que eu teria uma ajuda de custo por ter de me deslocar da capital até a distante Évora. Grana extra por 1h30 de viagem? Eu quase pagaria para dar aulas no Alentejo vermelho! Sou Flamengo, mas lembrei-me do hino do Grêmio: “Até a pé nós iremos…”. Eu não chegaria a tanto, iria de comboio, não a pé, mas o espírito era esse.

Uma aventura em Évora – 2

Eu ficaria com uma turma do 4º ano e outra do 5º, ensinando, respectivamente, Sociologia do Desenvolvimento e Sindicalismo. Para esta última não havia problema: eu escrevera, na pós-graduação brasileira, um paper em que abordava ideias de Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo e Gramsci, somando-as à organização sindical e aos movimentos sociais do proletariado europeu nas décadas de 1900 a 1930. O texto mereceu elogios e eu, todo pimpão, levei-o comigo para a Europa. Foi só xerocar o documento, distribuir cópias entre os alunos e encomendar seminários e discussões sobre os diversos tópicos. Este texto foi depositado na Biblioteca de Évora, bem perto da Escola do Caraça – era como meus alunos designavam a alma mater, por motivos óbvios.

Para Sociologia do Desenvolvimento, porém, o buraco era mais embaixo. Eu não tinha livros sobre o assunto, nem grana para comprá-los. Afinal, meu pouco dinheiro era para cigarros, muito álcool, comida barata, tomar o Metro (metrô) de Amadora, onde eu morava com um casal de amigos, até o centro de Lisboa, onde tudo acontecia. E também para jornais, obrigatórios, e um eventual hotel quando eu tinha companhia feminina. Sem outro recurso, entrei na Livraria Luso-Brasileira (acho que o nome era esse), peguei o livro Sociologia do Desenvolvimento, da Zahar, e saí na maior cara de pau. Ninguém me perseguiu, os deuses protegem professores iniciantes.

Veio então a preparação das aulas. Eu não tinha experiência e muito menos didática, então cronometrei minha exposição, os momentos de introduzir piadas para tornar mais leve a coisa e por aí foi. Tive a ideia de explorar uma fórmula de Lênin – socialismo = poder dos sovietes + eletricidade – e compará-la aos projetos desenvolvimentistas latino-americanos e portugueses, que enfatizam a eletrificação e outras políticas mas se omitem na questão do poder de classe. Em outras palavras, não se encontram por aí fórmulas do tipo capitalismo = poder da burguesia + eletricidade. Daí ser possível criticar, pela esquerda, as políticas dos generais dos cravos, também omissos quanto a esse poder. Era assim que se pensava na época, e olhem que meu côté trotskista me tornava mais sofisticado e flexível que os comunistas casca grossa.

Na véspera de meu début professoral, saí com uma turma para festejar. No final, quando eu, bebaço, me dirigia ao Metro, tropecei e senti uma dor lancinante no pé esquerdo. Aparentemente, ele estava quebrado, o que me imobilizaria em Lisboa. Mas desistir de Évora, nem pensar. Repeti para mim mesmo que era apenas uma entorse – e por sorte era mesmo, senão meu pé teria gangrenado –, manquitolei até o Metro e fui para Amadora, gemendo que nem alma penada. No dia seguinte, eu estava na Escola do Caraça, com o pé super inchado, pronto a enfrentar minha primeira turma.

Foi um sucesso, na minha enviesada opinião. Escrevi na lousa a fórmula leninista, os alunos copiaram, quebrei a tensão com observações divertidas nos momentos previstos, os alunos riram, discuti a questão do poder de classe, os alunos, sérios, pareceram concordar. Cumpri o cronograma até o último segundo. Meses depois, soube que, devido ao meu sotaque brazuca, eles não entenderam pissirongas, mas eram educados demais para me pedir que repetisse algum ponto ou que falasse mais devagar.

Alguns momentos dessa primeira aula são inesquecíveis. Uma aluna do 4º ano se encantou comigo, invadiu minha aula pro 5º ano e me encarou o tempo todo, embevecida. Chamava-se Antónia e era uma alentejana típica, meio feia, mais forte do que gorda. Meses depois, minha futura ex-mulher foi comigo até Évora e assistiu às minhas aulas. Antónia bufava de ódio. Se olhar matasse, haveria uma filósofa brasileira a menos no mundo.

E, finalmente, veio a confraternização com os alunos, todos sentados nas pedras gastas do templo romano. Os alentejanos eram maioria, mas havia rapazes e moças de todo o país, de Trás-os-Montes ao Algarve. Convenci-os a não me chamar de Sr. Professor Dr., apenas de professor, ou de Carlos, ou de Eduardo, ou de Carlos Eduardo ou de Cadu. E instiguei-os a entoar os lindos cantares alentejanos. Muitos deles achavam cafona, preferiam MPB ou rock, mas eu recebia uma Antónia rápida e ficava embevecido, ouvindo-os.

Entre uma toada e outra, paqueras e discussões políticas não cessavam. Os primeiros a se aproximar foram dois transmontanos que se diziam anarquistas, o Rato e o Bica (não lembro seus primeiros nomes). Vinham de aldeias conservadoras do Norte, e o anarquismo deles, a meu ver, era um recurso para continuarem a se opor a comunistas e socialistas. Mas havia um professor libertário, de ideias enraizadas e fino senso de humor, com quem tive divertidas discussões políticas. Claro que não lembro seu nome.

Simpatizante trosco, eu até tentei catequisar a moçada, no melhor estilo Escola com Partido – algo prejudicado por eu não ser militante de um partido nem em Portugal nem no Brasil –, mas não converti ninguém. Nem Antónia, que dava mostras ostensivas de querer abraçar as ideias de Lev Davidovitch, desde que pudesse também abraçar meu frágil corpinho. Pobre Antónia! O máximo de intimidade que tivemos foi um jantar no Fialho, um restaurante chique de Évora. Depois alguns alunos me felicitaram por ter comido apenas o jantar, não Antónia, mas outra coisa seria abuso, e dos grandes.

Minhas tentativas de proselitismo não tinham muita convicção. Em Lisboa eu participava de intermináveis discussões, escrevia artigos políticos às vezes publicados na imprensa próxima ao trotskismo, bebia porradas de imperiais no Rossio e tentava transar adoidado. Eu me sentia livre, leve e solto; meu casamento, de papel passado, tinha subido no telhado e se inclinava perigosamente na beirada, balançando as perninhas. Já em Évora, bastavam-me o templo romano e os cantares.

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As duas partes finais do conto Uma aventura em Évora serão publicadasnesta terça (10).

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