Uma aventura em Évora (Partes III e IV/Epílogo)
A trajetória de Cadu Matos em Évora
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Talvez eu tenha dado a impressão de que, mal entrava na classe, os rapazes recebessem um coral alentejano rápido, colocassem lenços no pescoço e boinas na cabeça, no melhor estilo local, e saíssem disciplinadamente para cantar junto às colunas milenares. Não era bem assim. Nem sempre havia cantorias – mas, quando havia, era mágico.
E nem todos cantavam. Os alunos do 5º ano eram mais reservados, interessados basicamente em se formar. Segundo eles, eu era um excelente professor, provavelmente porque lhes apresentei, mastigadinho no meu texto, algo do pensamento de Rosa Luxemburgo (de Greve de massas, partido e sindicatos). Trotsky (1905, História da Revolução Russa e Gramsci (em especial os textos sobre as comissões de fábrica da onda revolucionária anterior ao fascismo). Já para os do 4º ano – os cantores – dei aulas medíocres. Isso não os impediu de me considerarem um professor legal, “porreiro”.
A verdade é que desperdicei o Alentejo. Enquanto eu punha meus alunos para cantar, ou ensinava sobre as lutas operárias da primeira metade do século XX, ocorria uma profunda revolução agrária na região, com a ocupação dos latifúndios. Isso simplesmente passou batido por mim e pela moçada. Nem tentei estabelecer contato com os sindicatos rurais e os grupos de ocupação das fazendas. Sinto um profundo arrependimento por isso.
Quando não estava em classe ou orquestrando cantares, eu ficava num hotel barato, perto da praça do Giraldo. Ali começava a preparar minhas aulas, mas logo seguia para a Taberna do Giraldo (acho que o nome era esse). Ali minha produção aumentava, assim como a dosagem etílica no meu organismo.
Havia ocasiões em que eu recebia namoradinhas em Évora. Trocava então o hotel de terceira pela magnífica Pousada do Convento, bem pertinho da Escola do Caraça. Com esse comportamento, não é de espantar que os demais professores me olhassem meio atravessado. Não recordo o nome de nenhum deles. Além do anarquista, com quem eu convivia bem, a maioria mantinha-se cortês mas reservada, bem à portuguesa. E havia um fóssil remanescente da faculdade jesuíta expulsa em 1974, que certa vez tentou atingir-me com sua ironia, observando: “Vossa Excelência vai muito a Paris…”. Respondi de imediato: “Talvez eu vá demais, talvez Vossa Excelência vá de menos!”. Troscos sabem manejar, além das armas da crítica, as adagas da ironia, e o pobre nunca havia posto as patinhas fora do Alentejo…
Tudo isso levou meus alunos (e eu mesmo) à conclusão de que, paralelamente ao meu viés trotskista, eu possuía um côté marialva. Derivado do 4º marquês de Marialva, flor da nobreza mais reacionária, o termo designa “aquele que, sendo de boa família, só vivia com fadistas, alquiladores e outra gente desprezível”. De boa família tudo bem, fadistas não conhecia nenhum, alquilador, aprendi guglando, é um termo antigo para negociante de cavalos, eu tampouco conhecia, mas gente desprezível? Eu só queria ser feliz, participar da revolução, traçar mocinhas militantes, ouvir cantares no Alentejo e fados em Lisboa, escrever meus artiguinhos. É, não cheguei aos pés de John Reed.
Mas eu desempenhava minhas funções docentes e políticas da melhor maneira possível. Certa ocasião, Alfredo e José Luiz, porta-vozes dos alunos e dirigentes da Escola, convocaram-me para comparecer a uma reunião de escolas de Economia em Lisboa. Eu morava em Lisboa, devia falar em nome do Caraça enquanto eles não chegassem. Era um critério tão bom quanto qualquer outro para escolher delegados, e na hora marcada comecei minha intervenção. Estava em pauta a gestão socialista da economia portuguesa; eu considerava que não era o momento disso, pois a revolução estava longe de terminar. Quando comecei a expor essa ideia, ouvi risos de todos os cantos. Ao terminar, perguntei o motivo, e me explicaram: “És o quarto brasileiro a falar em seguida, pá”. A Legião Brazuca estava presente, encabeçada pelo pé-frio Márcio Moreira Alves (um discurso feito por ele, em 1968, deu o pretexto para os militares fecharem o Congresso brasileiro), para quem estava na hora de parar com mimimi e gerir o polo socialista da economia. Coit
ado, meses depois ele perdeu mais uma.
Se minha intervenção provocou risos, também mereceu elogios. Depois de chegarem, Alfredo e José Luiz disseram-me que eu havia “mandado falas porreiras”, representando bem a Escola.
Mas havia momentos em que a revolução se impunha, além das falas. Permanece indelével a lembrança de uma passeata noturna pelas ruas de Évora. Não lembro o motivo da manifestação. Lembro-me das bandeiras vermelhas, das tochas acesas que iluminavam o branco das casas, da multidão serpenteando pelas ruas estreitas, do luar – tudo isso compôs uma cena de extraordinária beleza.
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À medida que as forças políticas radicalizavam e que aumentava o risco de guerra civil, o dia a dia ficou mais violento. Certa vez, os alunos e alguns professores, eu entre eles, fomos a um seminário político de dois dias de duração. Na noite do primeiro dia, eu discutia com um professor, militante de um grupo militarizado de extremíssima esquerda. Estávamos os dois de pé, quando, sem aviso, ele me deu um golpe de judô ou outra arte marcial mais letal e me jogou no chão.
Enquanto me levantava, aturdido e indignado, os alunos entreolharam-se e começaram a cantar: “Eu quero ir para o monte/ Eu quero ir para o monte/Que no monte é qu’estou bem/ Que no monte é qu’estou bem”. É uma estrofe de Moda do Entrudo, de Zeca Afonso – autor de Grandola, Vila Morena, canção política proibida pelo salazarismo que tocou no rádio para desencadear, em 1974, a Revolução dos Cravos.
“Monte” é a designação da estância alentejana; foi o modo de a moçada prestar solidariedade a mim, porém sem se envolver num confronto entre senhores professores doutores, a recordar-nos que no Alentejo o embate político é mais civilizado e voltado contra o latifúndio, não entre militantes de grupelhos esquerdistas (e eu, para piorar, nem isso era).
Foi uma das últimas manifestações de solidariedade para comigo. Pouco a pouco, notei que mudava a atitude dos alunos a meu respeito. Os cantares praticamente desapareceram. Os dois jovens anarquistas tornaram-se desdenhosos, depois agressivos; Antónia, não seduzida e não abandonada (embora ela achasse que sim), mas de fato não traçada, aderiu a eles sem armas, que com seus braços fortes não precisava, e sem bagagens, que estava em casa, era uma flor do Alentejo.
Certo dia de novembro, um deles me disse que eu estava em Portugal, tirando emprego dos portugueses, por não ter perspectivas no Brasil. A xenofobia, o sentimento “Brazuca, go home”, crescia conforme a direita se organizava. Aquilo me deu uma gastura imensa e, tão logo terminou o ano letivo, disse adeus a Évora. O resultado foi que conquistei fama como analista político, capaz de prever a derrota da esquerda no entrevero do final de novembro.
Só fui rever “meu” templo romano meses depois, já em 1976. Passei na Escola para pedir demissão formalmente, despedir-me e receber alguns salários atrasados. Tive então a grata surpresa de saber que, como fora professor por menos de um ano, eu pagaria apenas o imposto do selo sobre meus rendimentos. Esse imposto existiu no Brasil desde o período colonial, e em meados do século 20 deu lugar a formas mais modernas de tributação, mas em Portugal continuava vivo, forte e sacudindo as perninhas. Graças a esse anacronismo luso, recebi os atrasados com um desconto mínimo. Tendo no bolso uma pequena fortuna – para os padrões de um turista brasileiro pobre –, uma quantia que me permitiu passar mais vários meses em Portugal pairando a uns 15 cm do solo, levemente alcoolizado com bom vinho e malt whisky, despedi-me definitivamente de Évora e, em especial, do templo romano. Abri mão das velhas pedras e colunas, com pesar; Diana, se quisesse, que ficasse com elas.