Resistência à Seca
A transposição do São Francisco e a força da palma no Nordeste
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No Nordeste, a seca nunca foi apenas um fenômeno climático. Ela sempre foi personagem principal de histórias de luta, fé e reinvenção. Durante décadas, o sertanejo aprendeu a conviver com o chão rachado e o céu sem nuvens. Mas, nos últimos anos, a resistência ganhou novos capítulos — escritos com água encanada e palma verdejando no meio da aridez.
A obra da Transposição do Rio São Francisco mudou o cenário de muitas comunidades. Canais rasgando a terra levaram água a regiões historicamente castigadas pela estiagem. O que antes era espera pela chuva passou a ser planejamento. Pequenos agricultores começaram a plantar com mais segurança. Cisternas deixaram de ser o único alívio. A água, ainda que controlada e distribuída com cuidado, passou a significar dignidade.
Mas o sertão não depende só de grandes obras. Ele também floresce com soluções simples e resistentes — como a palma forrageira. Essa planta, adaptada ao clima semiárido, virou símbolo de sobrevivência. Verde, firme e cheia de água em suas folhas grossas, a palma alimenta o gado mesmo quando o pasto desaparece. É economia, é segurança alimentar, é estratégia.
A palma ensinou que o segredo não é lutar contra a seca, mas aprender com ela. Seu cultivo exige técnica, espaçamento adequado, manejo correto para evitar pragas como a cochonilha. Hoje, variedades mais resistentes vêm sendo utilizadas, fortalecendo ainda mais o agricultor familiar.
No passado, a seca significava êxodo. Muitas famílias deixavam suas terras em busca de oportunidades nas capitais ou no Sudeste. Agora, com irrigação chegando e métodos adaptados ao semiárido, permanecer tornou-se possível. Não é o fim da seca — ela ainda vem, impiedosa — mas já não encontra o povo tão vulnerável.
A resistência do Nordeste não está apenas na água que chega pelos canais, mas na sabedoria de quem cultiva a terra há gerações. Entre a engenharia dos homens e a força da natureza, o sertanejo segue escrevendo sua história.
Porque no Nordeste, resistir é mais que sobreviver — é transformar a adversidade em aprendizado e esperança.