Curta nossa página


Sobressaltado

A última entrevista

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Sobressaltado, Afonso abriu os olhos e ajeitou-se na cadeira.

Lembrava-se apenas de estar a caminho de uma entrevista de emprego, mas, por mais que tentasse, não atinava como chegara naquele lugar.

Sentado junto de outras pessoas em uma imensa antessala que lembrava o Poupatempo da Praça da Sé, ele observava o ambiente a sua volta buscando alguma pista sobre a natureza do estabelecimento em que se encontrava.

Viu um grande painel na parede para o qual todas as pessoas em volta olhavam. Decidiu então puxar conversa com o homem sentado ao seu lado.

— Como vai, amigo? Meu nome é Afonso.

— Prazer, Gildo.

— Você está esperando há muito tempo? Será que vai demorar para sermos chamados?

— Estou esperando há duas horas, mas sou o próximo. Qual é o número da sua senha?

Confuso, Afonso levou uma mão ao bolso do blazer e encontrou um papel plastificado.

— Número 162, falou, depois de olhar a ficha.

— Sou o 161, você será chamado logo depois de mim.

Sem jeito para admitir que não sabia onde estava, Afonso arriscou:

— A concorrência pelas vagas está grande, não é mesmo?

— Como sempre! É a sua primeira vez por aqui?

— Sim, e nem sei se estou qualificado para uma vaga.

— Ora, se não fosse minimamente qualificado, na primeira triagem você já teria sido conduzido à antessala do subsolo e não para essa do primeiro andar, replicou Gildo.

— É mesmo? E quem vai para o subsolo?

— Muita gente: fichas sujas de diversas matizes, misóginos, racistas e homofóbicos contumazes… e outros seres desqualificados em função das suas péssimas índoles e atitudes destrutivas para com o próximo.

Perplexo com a resposta, Afonso balbuciou:

— Sério? Bem, eu não sou nada disso mesmo… bem, pelo menos me esforço para não ser.

— Fique tranquilo, já passou pela primeira peneira. A seguir, durante a entrevista, vão revisar todos os itens da sua ficha, aí você será informado sobre a sua exata qualificação.

Mais confuso ainda sobre a natureza da atividade da empresa contratante e da entrevista mencionada por Gildo, Afonso questionou novamente o simpático e atencioso “concorrente”:

— Então esta não é a sua primeira entrevista no estabelecimento?

— Não, estou na minha segunda chance. Desta vez creio que serei admitido em uma das duas melhores seções, visto que corrigi os meus deslizes anteriores e me tornei uma pessoa melhor.

Atônito, Afonso tentou puxar pela memória possíveis deslizes que pudesse ter cometido em suas atividades profissionais pretéritas.

— Bem, ninguém é perfeito, todos cometemos erros, arriscou.

— Não se trata de perfeição, mas aqui somos avaliados pela nossa empatia, humanidade e pelo que entregamos aos nossos semelhantes, respondeu Gildo.

— Interessante, posso saber qual é a sua experiência profissional? Eu já fui vendedor de apólices de seguro, bancário e escritor.

— Sociólogo, professor e político, mas atividades profissionais aqui não são importantes. Como falei, o que interessa mesmo é a nossa relação com os outros seres humanos e a natureza da nossa contribuição à humanidade. Grandes ou pequenas, todas as posturas e atitudes contam, afirmou Gildo.

Curioso, Afonso replicou:

— Hum, o amigo disse que cometeu alguns deslizes… se importaria em dar exemplos?

— Bem, por vezes já fui ególatra, narcisista, preconceituoso e, principalmente, um traidor das próprias ideias, um babaca que abriu mão dos seus princípios em troca de um sucesso artificial e de uma glória vã.

Pensativo, Afonso vasculhou situações da sua vida em que pudesse ter praticado atitudes similares às confessadas por Gildo.

— Parabenizo o amigo pela sinceridade, mas outra pergunta: como o entrevistador pode saber de atitudes privativas ou de sentimentos íntimos e pessoais se isso não estiver registrado nas nossas fichas profissionais?

— Ora, o CEO sempre sabe de tudo apenas olhando nos nossos olhos, não deixa passar nada. Melhor ser sincero do que pagar mico negando as nossas derrapadas e maus sentimentos, assim podemos ter a chance de nos redimirmos e de buscarmos uma vaga em uma seção mais meritória.

Abespinhado, Afonso desistiu de tentar entender a estranha situação por vias indiretas e, sofregamente, confessou ao seu interlocutor:

— Olha, Gildo, acredite em mim, não sei o que houve comigo, mas simplesmente não tenho ideia de onde estou e nem de como vim parar aqui. A minha última lembrança é de estar dirigindo o meu carro. Depois, dei por mim sentado nessa cadeira, você pode me dizer onde estamos e qual é a natureza do emprego que estamos buscando?

Surpreso, Gildo olhou com empatia para o confuso colega e exclamou:

— Emprego? Ah, você é um daqueles casos raros em que não existe consciência da transição, não é mesmo?

Chocado, Afonso exclamou:

—Transição? Como assim? Você que já esteve aqui, por favor, me explique!

— Amigo, como eu já disse, essa é a minha segunda vez. Na primeira entrevista, o CEO me deu duas opções: ocupar uma vaga na seção C ou retornar para uma segunda vida terrena. Eu escolhi retornar, tive uma segunda passagem e agora estou novamente aqui para tentar uma vaga nas seções A ou B.

Inicialmente chocado, mas depois estranhamente invadido por um sentimento de doce torpor, Afonso balbuciou:

— Então, quer dizer que nós dois estamos…

— Sim, tecnicamente, todos aqui estão mortos! Relaxe, amigo, todo o mundo precisa fazer essa passagem. Bem, chamaram o meu número, desejo-lhe boa sorte!

Após Gildo levantar da cadeira e caminhar na direção da sala de entrevistas, Afonso, em um lampejo, recordou do ônibus desgovernado que repentinamente projetou-se na frente do seu carro.

Enfim, confortado pelo fato da primeira triagem não o ter colocado no insidioso subsolo mencionado pelo parceiro de transição, ele refletiu:

— Se isso não for um sonho ou se eu não estiver em um conto de algum autor metido a Franz Kafka, também vou pedir uma segunda chance para me redimir de preconceitos e babaquices que porventura tenha praticado.

De repente, sentiu um frio na espinha quando se lembrou daquela vez em que, irritado com a demora do porteiro em liberar o portão da garagem, gritou:

— Abre logo essa m*, seu cabeça-chata do inferno!

……………………

J. Emiliano Cruz é funcionário público federal, escritor e historiador.
Instagram: https://www.instagram.com/jorge23215/#
Autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”.
Adquira a obra aqui:
https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.