Um surto de vida
A via Crucis do Corpo
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É meia noite em ponto. Acordo. Levanto. Começa a saga!
Sinto arrepio, frio, calafrio. O coração dispara, a boca seca, o desespero me toma. Tomo água com açúcar.
Abro a porta. Lá fora o silêncio impera. Sento e tento respirar calmamente.
Algo toma meu ser. Não sei o quê. Não sei por que tanto pavor. Parece que vou morrer. A cada cinco minutos sento, levanto, volto pra cama e
rolo. Sinto a presença da morte a me chamar. Tomo chá, não me conformo por tudo o que sinto. São muitos os sintomas.
O dia amanhece. Rezo, peço aos santos:
– Quero o meu eu de volta!
Não sei mais quem sou. Peço ajuda ao farmacêutico, ao curandeiro, ao médico…
Ninguém me entende. Ninguém me atende.
Meu corpo fragilizado pede ajuda. É uma mistura de tudo: meu corpo padece quando a mente fica confusa. Nela há um mundo estranho e cheio de dúvidas.
As horas passam. O relógio não para. Sinto angústia.
A noite é uma penumbra. Todos dormem um sono dos deuses! E eu estou acordada no sofá da sala. Conto nos dedos, faço uma prece, medito, ouço música. E em mim nada muda!
A garganta fecha. Sinto cheiro de queimado. Olhos arregalados, vou ao banheiro e me olho no espelho. Boto a língua pra fora e vejo empolas.
Falo pra mim que não é afta…
Caminho por todos os cômodos.
Alguém me fala que é hora do banho.
É a hora mais complicada. Tiro a roupa, abro o chuveiro. É um verdadeiro tormento! Um desespero me toma. Não uso sabonete e nem shampoo. Parece que tudo pode me sufocar. De portas abertas, mal tomo banho. Saio, me seco.
Alguém me chama:
– Já tomou banho? É hora do jantar.
Tudo recomeça: boca seca, garganta fecha, etc…
Parece que tudo vai me fazer mal. Aí começa uma pesquisa na minha cabeça. Preciso descobrir qual o tempero que está me causando tanto desespero! Por que tantas doenças?
Meu corpo parece vai cair por terra. Tampei o relógio para não enxergar mais as horas. Os dias me levam com frio, calafrio, arrepio…
Estamos em 2020 e a morte está presente por todo lado e em tudo aquilo em que penso.
Mas que diabos? Por que tantos pensamentos ruins me perseguem?
Será que dei espaço pra tantos fantasmas?
Uma amiga me disse que sou uma pessoa extremamente sugestionável em meio a uma pandemia, num país cujo executivo aderiu à Necropolítica.
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Marlene Xavier Nobre é coautora de Rapsódia da Rua da Mooca (Tão Livros, no prelo), com Edna Domenica, Eduardo Martínez, Gilberto Motta e Rosilene Souza.