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Sem roteiro

A vida adulta não veio com manual

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma informação que esconderam de nós na infância: ninguém sabe exatamente o que está fazendo.

Passamos anos imaginando que, em algum momento, a vida adulta produziria uma espécie de certificado de competência. Aos trinta, quarenta, cinquenta anos, finalmente saberíamos como pagar todas as contas, administrar os afetos, cuidar da família, trabalhar, descansar, manter amizades, responder mensagens e ainda lembrar onde colocamos a chave.

Não acontece.

A gente apenas aprende a fazer tudo isso enquanto improvisa.

Talvez seja essa a maior ficção da vida adulta: a aparência de controle.

Encontramos pessoas seguras, bem vestidas, pontuais e produtivas e imaginamos que elas compreenderam alguma coisa que nós ainda não compreendemos.

Provavelmente estão apenas fingindo melhor.

Goffman talvez dissesse que a sociedade depende justamente dessa administração das aparências. Existe um palco, existem papéis, existem expectativas. E nós entramos em cena todos os dias, tentando parecer minimamente preparados para o personagem que nos entregaram.

O curioso é que ninguém vê o intervalo.

Ninguém vê a pessoa chegando em casa e tirando os sapatos como quem encerra uma jornada de guerra.

Ninguém vê o silêncio depois de uma reunião difícil.

Nem o cansaço depois de cuidar de alguém.

Nem a dúvida antes de tomar uma decisão.

A vida adulta é cheia de coisas que ninguém ensina.

Como perder alguém.

Como recomeçar.

Como estabelecer limites sem culpa.

Como descobrir que algumas amizades mudam.

Como perceber que determinadas pessoas já não cabem na nossa vida.

Como continuar gostando da própria companhia.

Talvez amadurecer não seja finalmente descobrir como viver.

Talvez seja aprender a conviver com o fato de que viver nunca será completamente resolvido.

E, sinceramente, talvez exista certa liberdade nisso.

Afinal, se ninguém sabe exatamente o que está fazendo, podemos parar de exigir de nós mesmos a perfeição que também não exigimos dos outros.

No fim, somos todos adultos improvisando.

Alguns com planilhas.

Outros com terapia.

Alguns com listas.

Outros com fé.

E muitos com um café na mão, tentando descobrir como chegaremos até sexta-feira.

É pouco?

Talvez.

Mas, por enquanto, está funcionando.

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