Fenômeno exato
A vida é um livro que nós mesmos escrevemos
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Quando a gente se senta à mesa da vida, não sabemos o que nos será servido. É bem possível que a própria vida nos sirva um prato requintado em uma salva de prata. Quem sabe uma substanciosa canja de galinha com muitos legumes, em uma sopeira de porcelana. A sopeira talvez esteja lascada. A vida também pode nos servir frango assado queimado com batatas quase cruas, num prato da mais fina porcelana, sobre uma delicada toalha de linho. A gente pode se ver diante de pratos condimentados ou alimentos sem qualquer tempero.
Longe de ser uma metáfora alimentar, o importante é que, seja lá o que a vida nos servir, ou como nos servir, cabe a cada um de nós buscar a alimentação correta. As experiências da vida servem de alimento para a alma. Elas são o feijão com arroz do caráter. Há mais de meio século neste mundo de meu Deus, nem sempre percebo que, boa ou ruim, a comida foi servida na mais fina porcelana. Ao me prender àquilo que me serviram, e como me serviram, deixo de aproveitar ao máximo o que me foi servido. Se recebi, tenho a obrigação de saber como usufruir.
Na prática, precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para podermos viver a vida que nos espera. É como se ouvíssemos uma conversa paralela entre Paulo Coelho e Raul Seixas. O primeiro diria que o mundo está nas mãos daqueles que têm a coragem de sonhar e de correr o risco de viver seus sonhos. Paulo certamente ouviria de Raul que, enquanto o amigo espera respostas olhando para o céu, ele (Raul Seixas) está tão ocupado em viver que, em lugar de perguntar, faz. “Não sei onde tô indo, mas sei que tô no meu caminho”.
Do ponto de vista filosófico, a vida é um livro que nós mesmos escrevemos. É por isso que, para Forrest Gump, viver é como abrir uma caixa de chocolates. Normalmente, a gente nunca sabe o que vai encontrar. É como o futuro. Como não podemos prever o que ele nos reserva, tudo acaba sendo possível, inclusive a descoberta maior de que a melhor liberdade é o encontro de um amor para se prender. Eu tô de boa, pois, sabedor de que o tempo é como o avião, passa voando, aprendi a dançar na chuva para não me preocupar com a força da tempestade.
Tudo na natureza obedece a uma lei de causa e efeito. Essa é a base da máxima de que a vida é um fenômeno exato, matemático e inexorável. Ao mesmo tempo em que não é aleatória, ela é feita de fases. Ainda que silenciosamente, ou fazes ou não fazes. Aliás, o silêncio responde até mesmo aquilo que não foi perguntado. Considerando que a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros, não devemos jamais esquecer do amontoado de possibilidades sempre à nossa disposição.
Na verdade, é fundamental que nos lembremos diariamente que basta ter coragem para buscá-las. A estrada da vida pode ser longa ou curta, lisa ou esburacada, inclinada ou reta. Isso depende exclusivamente de cada um de nós. Lembrando o mestre Voltaire, aquele nos faz crer em absurdos é o mesmo que pode nos obrigar a praticar as piores atrocidades. Por isso, às vezes vale a pena a gente dar mais importância à tese de John Lennon, ícone dos Beatles e ativista da paz. Segundo o garoto de Liverpool, a vida é aquilo que acontece enquanto estamos fazendo outros planos.
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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na prateleira da sala e usa um Notebook para escrever textos pontuais pra Notibras