Curta nossa página


Impressões

A vida em modo performance

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Talvez Goffman tivesse razão sobre uma coisa que hoje se tornou quase impossível ignorar: passamos boa parte da vida administrando impressões.

A diferença é que, antigamente, bastava sobreviver socialmente à família, ao trabalho, à vizinhança e àquela tia que sabia de tudo. Hoje temos também o Instagram.

A vida ganhou plateia.

Acordamos e, antes mesmo de escovar os dentes, já existe a possibilidade de alguém saber onde estamos, o que estamos comendo, como está nosso humor e, dependendo do grau de intimidade digital, até se dormimos bem.

É curioso.

A humanidade inventou a privacidade e, algumas décadas depois, decidiu voluntariamente publicar o café da manhã.

Mas não é apenas exposição. Existe algo mais sofisticado acontecendo: performamos versões de nós mesmos.

A pessoa cansada publica produtividade.

A pessoa insegura publica frases de autoestima.

A pessoa endividada publica uma viagem.

A pessoa apaixonada publica uma música.

A pessoa desapaixonada publica outra música para deixar claro que está desapaixonada.

E todos nós fingimos que não estamos fingindo.

Talvez seja essa a grande peça teatral contemporânea: ninguém admite estar no palco.

Foucault provavelmente encontraria material suficiente para mais alguns livros observando como aprendemos a vigiar uns aos outros sem precisar de nenhuma instituição formal. O olhar social foi terceirizado para a câmera frontal.

Mas existe uma diferença entre construir uma imagem e ser falso.

Todos nós selecionamos o que mostramos.

Ninguém apresenta a vida inteira.

Até porque seria inconveniente publicar a fila do banco, o boleto vencido, a discussão familiar, a roupa acumulada na cadeira e aquela crise existencial que surgiu às 23h47 porque alguém resolveu pensar demais.

A questão não é mostrar apenas o bonito.

É acreditar que o bonito constitui o todo.

A fotografia é verdadeira.

Só não é completa.

E talvez seja justamente aí que mora a nossa maior confusão contemporânea: acreditamos que conhecemos pessoas porque conhecemos suas imagens.

Não conhecemos.

Conhecemos o enquadramento.

A vida continua acontecendo fora dele.

E, felizmente, ainda existe uma parte da existência que nenhuma câmera consegue capturar.

Talvez seja justamente essa a parte mais verdadeira.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.