Clarice Lispector
A voz dos vencidos e a procura da coisa, em Lispector
Publicado
em
A voz dos vencidos em “A Quinta História”
Ao pensar em possível análise de ”A Quinta-História” de Clarice Lispector, considerou-se a referência ao período pós Segunda Guerra do século XX, e que a contemporaneidade da construção narrativa é útil para ilustrar a abordagem benjaminiana sobre o narrador:
A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. Entre estes, existem dois grupos que se interpenetram de múltiplas maneiras. A figura do narrador só se torna plenamente tangível se temos presentes esses dois [:] alguém que vem de longe [e] o homem que ganhou honestamente sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições. (BENJAMIN, 1987).
Frequentemente, as narrativas ocidentais se distanciam das histórias orais e constituem um aparato hegemônico cujo proselitismo se sustenta, ao longo da História – canonizada pelo poder dos impérios. Padre Antonio Vieira nomeou os impérios: Assírio, Persa, Grego, Romano, e, sob a égide da crença milenarista, pleiteou, no Sermão do Esposo da Mãe de Deus, que o quinto império seria o de Portugal. Em Mensagem, Fernando Pessoa retoma o sebastianismo português no poema O Quinto Império (1934). Em ”A Quinta-História” de Clarice Lispector – desde seu título – percebe-se a denúncia às narrativas fundamentalistas (tais como a referente ao quinto império).
Publicado em Felicidade Clandestina, em 1971, mas referente ao universo que trata dos anos 1950-1960, o conto ”A Quinta História” propõe cinco versões narrativas dos seguintes fatos: “queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. […] Assim fiz. Morreram.”.
O conto apresenta cinco diferentes maneiras de narrar como se deu a aprendizagem do preparo e da aplicação de um veneno infalível na eliminação de baratas. Os títulos das versões que a narradora considera “verdadeiras” são: “Como Matar Baratas”, “O Assassinato” e “As Estátuas”.
“Como Matar Baratas” permanece no nível discursivo do senso comum, é informativo, factual, denotativo e informal. Traz a receita: “Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.”.
A segunda história do conto narra “O Assassinato”: “Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia formar parte da natureza.”. Conforme a teoria darwinista da evolução, constata-se a vitória do mais forte sobre o mais fraco: “Já era de madrugada. […] No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome amanhecia.” A expressão “nosso nome” sinaliza que a dona de casa representa uma classe social ou uma raça. E a palavra “amanhecia” adquire uma conotação positivista ou de construção do progresso.
Na terceira história (“As Estátuas”), a narradora descreve as baratas mortas pela evocação da imagem do desaparecimento da antiga cidade romana de Pompeia, devido à erupção do vulcão Vesúvio: “Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia”. (LISPECTOR, 1998).
A história da profana Pompeia que desaparecera pelo fogo preservou-se por meio da narrativa oral, mas foi tida por mito durante quinze séculos, até obter comprovação material, em 1748, quando foram feitas escavações no local. Os corpos dos antigos habitantes foram encontrados como estátuas que reproduziam a ação feita no momento da catástrofe. De maneira similar, Lispector narra a morte das baratas por envenenamento:
A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. […] E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. (LISPECTOR, 1998).
“As Estátuas” remete a um universo das verdades que não bastam ser narradas, mas demandam comprovações materiais. No texto, essa materialidade se dá pela atribuição de comportamentos e sentimentos humanos às baratas:
Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras – subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! – essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te… Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de…” (LISPECTOR, 1998).
A remissão aos cadáveres das baratas como estátuas é “figura chave para a alegoria, pois cria, através do seu espectro materializado, o espaço do imaginário que sonha com a vida.” (ANDRADE, 2016).
A quarta história menciona as sensações da narradora e o pressentimento de que novas baratas surgiriam:
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde essa mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal como quem já não dorme sem a avidez de um rito? (LISPECTOR, 1998).
Na quarta história, a narradora reflete sobre “o vício de viver” que rebenta seu “molde interno” perante a escolha entre sobreviver ou salvar a sua alma:
Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou a minha alma. (LISPECTOR, 1998).
A escolha redunda em passar a ostentar “secretamente no coração uma placa de virtude: Esta casa foi dedetizada” (LISPECTOR, 1998).
A placa Esta casa foi dedetizada é ”como um prêmio de virtude, uma cena alegórica da limpeza étnica nazista” (ANDRADE, 2016).
“A Quinta História” evoca questões presentes tais como: as massas de excluídos de sua própria pátria por pobreza ou guerra, a separação entre os que conseguirão trabalhar sob regime de escravidão (ainda que voluntária) e os que permanecerão abaixo da linha da pobreza; a alienação do indivíduo frente o problema do outro; a formação de falsas redes que giram em torno de si mesmas; o fim do dialogismo.
“A Quinta História” é um laboratório do processo narrativo em que uma única narradora se abre ao projeto de construção da alteridade a partir do “senso prático [que] é uma das características de muitos narradores natos.” (BENJAMIN, 1987). As diferentes narrativas do conto ”A Quinta História” resultam dos esforços da vivência do papel de narradora nata que se modifica ao experimentar o contido nas próprias narrativas.
A narradora conta “três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.” (LISPECTOR, 1998). Tal qual Sherazade, pretende sobreviver pela manutenção da tradição oral. As repetições ao longo dos diferentes momentos narrativos tentam construir tal tradição. A identidade da voz que narra determina o convencimento sobre a verdade do que é narrado. Lispector não dá pronta essa identidade. Apenas constrói pistas de identificações em cada um dos segmentos narrativos do conto.
A quarta narrativa (“Esta casa foi dedetizada”), assim como a quinta (“Leibniz e a Transcendência do Amor na Polinésia”) não são reconhecidas como literalmente verdadeiras pela narradora, à revelia de referirem, metaforicamente, a fatos históricos.
“Esta casa foi dedetizada” refere ao projeto de higienização dos campos de concentração evocando as ameaças: ”Um piolho é a sua morte” e ”Limpeza é saúde”. Os ambulatórios médicos dos campos de concentração realizavam pesquisas com humanos que incluíam mutilações e envenenamentos, ao invés de prestar atendimento aos mais frágeis. A sopa era servida somente aos aptos ao trabalho.
Em “Leibniz e a Transcendência do Amor na Polinésia” há várias chaves de leitura sobrepostas. Leibniz (1646 – 1716) foi filósofo, mas também diplomata alemão. Daí considerar como primeira chave a do olhar estrangeiro sobre os fatos narrados. Como filósofo, Leibniz tentou encontrar o princípio que rege a ordem da existência das verdades de fato. Essa tentativa também comparece na busca da narradora de ”A Quinta História”. Como germânico, Leibniz remete à imagem de povo alemão que, no século XIX, foi associada ao Romantismo (em seus temas de amor, morte, idealismo), mas, no século XX, ao nazismo. A menção à Transcendência do amor remete ao amor que as baratas foram impedidas de declarar ao serem envenenadas. A Polinésia é um conjunto de ilhas no Sul do Oceano Pacífico. Muitas delas são colônias dos Estados Unidos – protagonista tanto da destruição nuclear de Hiroshima e Nagasaki, como do contexto mundial da Guerra Fria. Essa comparece sob a metáfora da noite ou cenário da destruição planejada por algozes vitoriosos contra a inocência das vítimas ou das baratas: “Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite.” (LISPECTOR, 1998).
O final do conto mantém a abertura para um novo recomeço a ser tecido pela leitora. O conceito de verdade fica no plano existencial; é algo que precisa ser experimentado por quem assim o define.
No conto ”A Quinta História”, as baratas agonizantes morrem em movimento. Em Noite e Neblina, os prisioneiros doentes “morrem de olhos abertos” (CAYROL, 1946) nas enfermarias do campo de concentração, sinal de nada fora feito para amenizar suas dores. Em ”A Quinta História”, as vozes das baratas agonizantes comparecem entre cortadas pelos efeitos do veneno algoz tal qual voz da testemunha que se ergue soberana às imagens do genocídio.
Conclui-se que o projeto filosófico de Walter Benjamin – que pretende que a voz dos vencidos se coloque como antítese às teses das classes dominantes – foi contemplado por Lispector.
(Edna Domenica)
Clarice Lispector e “A procura da coisa”
“Clarice veio de um mistério, partiu para outro. Ficamos sem saber a essência do mistério. Ou o mistério não era essencial. Essencial era Clarice viajando nele.” (Carlos Drummond de Andrade)
Clarice ou Chaya Pinkhasovna Lispector, que nasceu em uma aldeia na atual Ucrânia, é uma das escritoras mais lidas no Brasil e no exterior. Tem cerca de 200 traduções em dez idiomas. Na internet é comum encontrar frases e pensamentos creditados a Clarice, porém, sem comprovação ou beirando crime autoral.
As razões de sua obra ganhar o mundo são muitas, entre elas a capacidade de despertar o leitor para si e para o outro. Na base, a qualidade das criações, temáticas e textos. E a própria Clarice, a mulher guerreira, corajosa e absolutamente anos-luz à frente de seu tempo.
LER CLARICE É URGENTE E FUNDAMENTAL
Sempre foi e, nos dias de hoje, sua literatura assume ainda maior importância, na medida em que ela se exercita – e nos leva junto, através da sua linguagem – a construir e aperfeiçoar o respeito pelas minorias e os marginalizados. Clarice é pura alteridade/empatia. E mistérios.
A “bruxa” – como era chamada pelos mais íntimos dela – deixou extensa e rica obra em gêneros narrativos diversos. Clarice escreveu crônicas, contos, romances, literatura infantil, páginas femininas em revista e atuou ativamente como jornalista. E também cartas, além de um livro de lendas brasileiras, uma conferência, uma peça de teatro, um artigo sobre tradução e inúmeras entrevistas, enquanto entrevistadora, para periódicos cariocas. Ufa!
A “PROCURA DA COISA” E A LIBERTAÇÃO DAS MULHERES
O universo temático da autora é marcante. Mas, sem dúvida, o mais presente é a própria Clarice, que menciona ao longo de seus escritos “a procura da coisa”. De fato, personagens, sobretudo mulheres, em certos momentos são levadas pela linguagem a um território outro, que não é o da lógica, mas o que ela chama de “atrás do pensamento”, em que experiências singulares e complexas afloram de encantamento e nojo, paradoxalmente envolvidas num mesmo halo de vida e morte, como se aí se concentrasse o sentido da condição humana, um paraíso infernal ou um inferno paradisíaco, o ‘âmago da coisa’, matéria viva pulsando.
Para reencontrar Clarice Lispector, recorri ao trabalho extraordinário da professora Nádia Battella Gotlib, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A pesquisadora, pioneira da vida e obra de Clarice, destaca sobre “A Hora da Estrela”:
“O romance foi publicado antes da morte da autora e contou com a colaboração de Olga Borelli, que foi sua secretária nos últimos sete anos de vida de Clarice. Olga assumiu essa função porque Clarice passou a ter dificuldades de escrever por causa da mão deformada devido a um incêndio ocorrido em seu apartamento, em 1966. Essa coincidência entre o período da escrita – antes de ficar doente – e a data de sua morte cria mesmo uma impressão de que se trata de uma obra de agonia”.
MISTÉRIOS E INFINITOS
Há muitos fatos e aspectos ainda não conhecidos e/ou revelados sobre Clarice Lispector, pois sua inestimável obra provoca, instiga, desmonta o que tende a se cristalizar; como num labirinto. Seus textos pedem leitores abertos às inovações da linguagem e às rupturas com padrões de comportamentos e com a própria lógica. Subjetividades concretas à flor da pele.
Como bem escreveu Caetano Veloso em sua canção antológica: “Que mistérios tem Clarice?”
(Gilberto Motta)
…………………..
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Ana Luísa. Insetos. A modernidade de uma linguagem em ruínas: contra-arquiteturas. In: Ruinologias. Editora da UFSC. 2016.
BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
GOTLIB, Nádia Battella. “Metamorfoses do Mal: Uma Leitura de Clarice Lispector”, 1999, e relançado pela Edusp em 2006, e “Clarice Lispector”, 2002 – Publifolha.
LISPECTOR, Clarice. A Quinta História. In Felicidade Clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Disponível em https://nesgadeterra.blogspot.com.br/2013/12/a-quinta-historia-clarice-lispector.html
MARCONATTO, Arildo Luiz. Gotfried Leibniz. Disponível em http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=76
MEROLA, E Domenica. Blog Aquecendo a escrita. Postado e 04/12/2017. https://aquecendoaescrita.blogspot.com/2017/12/os-narradores-em-quinta-historia-e.html
Edna Domenica é autora de “O Setênio” (Tão livros, 2024) e co-autora de “Rapsódia da Rua da Mooca” (Tão livros, no prelo). Dedica-se ao PRCDC – “Programa de Recuperação Cognitiva e Dessensibilização de Cromofobia” – um projeto de leituras dos autores: João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Chico Buarque de Holanda, e outros.
Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/ pesquisador de mistérios e entre eles, Clarice cada vez mais um infinito enigma, uma busca. Vive na Guarda do Embaú, vila de pescadores no Litoral Sul de SC.