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Ao Tato

A xormiguinha

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Minha amiga Sílvia Lakatos escreveu páginas comoventes em memória de seu sobrinho Tarcísio Lakatos, o Tato, que faleceu com apenas 42 anos. Em uma passagem, ela conta que, no início da adolescência, tomava conta do filho da irmã, um garotinho que ensaiava uma dislexia, trocando o F por X. Ele perguntava, por exemplo, “Tia, vamos usar xumaça para acabar com as xormigas do quintal?”

Quando conheci o Tato, a dislexia havia ficado para trás. Mas a evocação de Silvinha serviu de inspiração para esta fábula.

Era uma vez uma formiguinha pra lá de disléxica. Chamava-se Acrísio e vivia com suas irmãs num formigueiro no Brasil. Normalmente, trocava o F pelo som de X, dizendo pérolas como “Nós, xormigas, somos xerozes”. Quando estava nervoso, porém, os X se multiplicavam em lugar das demais consoantes, era um pesadelo, ou melhor, um xexadelo.

O formigueiro (ou xormigueiro) de Acrísio ficava no quintal de dona Dolores, uma senhora que não gostava nem um pouco da devastação formigal em sua horta. Ela já havia tentado de tudo para eliminar a colônia, atacando-a com veneno, fumaça, coisas assim. Claro, não adiantou, formiga é um bicho resistente pra dedéu.

Sem alternativa, dona Dolores decidiu afogar o formigueiro. Não tinha ilusões quanto ao êxito da investida, mas pelo menos causaria a morte de várias centenas dos odiados insetos. Acrísio, que estava de sentinela enquanto as demais obedeciam à máxima cartesiana em versão formiguesca – Trabalho, logo existo –, viu a velha se aproximar com uma mangueira nas mãos e uma expressão decidida no rosto, compreendeu o perigo e, nervosíssimo, com a dislexia a mil, deu o alarme:

– Xudeu! Xujamos! A xéia xia da xuxa quer nos axogar!!

(Diga-se que Acrísio, além de disléxico, era uma formiga pra lá de desbocada.)

Como era previsível, o formigueiro escapou. Houve centenas de mortes, mas a grande maioria dos membros sobreviveu, Acrísio entre eles. Dona Dolores resignou-se a repartir os produtos que cultivava com o formigame (guglei, é um dos vários coletivos de formigas). E a vida continuou, quase como antes.

Quase, porque na época um dos programas de maior audiência na TV brasileira era o Show da Xuxa. E, desde o brado de advertência de Acrísio, a tigrada formiguesca se reúne junto à janela na hora do programa, e rola de rir cada vez que nome da atração é pronunciado. Alguns formigões, mais sacaninhas, insistem em fazer jogos de palavras de duplo sentido com o título do campeão de audiência:

– Xou da Xuxa… Xou xim, mas quem não é?

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