Leo
Acordou com a pele cheia de manchinhas
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Leonardo, o Leo, acordou com a pele cheia de manchinhas. De saída, assustou-se com a quantidade, umas 30, espalhadas pela barriga; concluiu que elas deviam estar aparecendo aos poucos, umas quatro por dia, sem ele notar. O segundo motivo de inquietação foi, é claro, o que estaria por trás do surgimento delas.
“Manchas de velhice? Porra, nem tenho 50 anos!”
Lembrar da idade o fez pensar no pai, Leopoldo. Ele sumira quando estava com 48 anos, a idade atual de Leo. Saíra de casa certa noite, sem se despedir da mulher e do filho, e nunca mais voltou. E tampouco deu notícias, cafajestes agem assim.
“Provavelmente já bateu as botas”, pensou. “Bem feito!”
O velho rancor contra a figura paterna, que o abandonara quando Leo era um adolescente espinhudo de 14 anos, retornou com força, e o fez esquecer das manchinhas. No dia seguinte, porém já eram 33 (ele contou). Dessa vez, preocupou-se de verdade.
Ao chegar ao trabalho, foi pesquisar “manchas de velhice” no Google. Verificou que surgiam a partir dos 40 anos; que a exposição ao sol favorecia o seu aparecimento e multiplicação; e, detalhe inquietante, tinham cor marrom. Já as da sua pele eram pretas.
E então baixou o terror de vez. Lembrou do tipo mais agressivo de câncer de pele, o melanoma; uma guglada ensinou-lhe que o termo vem de duas palavras gregas, “melas” e “oma”, que significam, respectivamente, negro e tumor. Tumor negro, manchas negras…Suando frio, viu que teria de procurar o quanto antes um oncologista, por sorte a empresa fornecia um bom plano de assistência médica.
Leo passou a semana seguinte remoendo-se em silêncio, sem dizer nada à mulher e a Júnior, que estava com 15 anos. Na oitava noite, porém, surgiram preocupações bem maiores que um câncer de pele.
Era uma noite quente, de luar. Ele estava na biblioteca, sozinho (isolava-se o mais possível), e olhou para a lua pela janela aberta. No mesmo instante seu corpo transformou-se, cobriu-se de um pelo amarelado, no qual se destacavam as manchas escuras. Presas surgiram em sua boca, as mãos e os pés ganharam garras, os músculos ficaram mais fortes, sentia-se ágil, perigoso, letal.
Pela janela, vinham os inebriantes odores de incontáveis vítimas em potencial – os animais domésticos da vizinhança – e também dos humanos. Foi em vão que disse a si mesmo, assumindo-se como predador, que jamais abateria uma pessoa; uma voz interior – resquício de consciência? o instinto que passaria a guiá-lo? – retrucou, ele mataria sim, e devoraria partes do cadáver. E cedo ou tarde acabaria morto, cidades não são o ambiente ideal para grandes felinos. Para evitar isso, precisava ir embora imediatamente.
Era verdade, Leo teve de fazer um esforço (literalmente) sobre-humano para não iniciar a chacina pela mulher, que dormia no quarto de casal. Antes de deixar a casa, compreendeu duas coisas. Uma, que o pai não fora um canalha; outra, que não era por acaso que os homens de sua família (de seu bando) tinham nomes começados por Leo: Leonardo, Leopoldo, o avô Leovegildo, o bisavô Leocádio…
À diferença do pai, porém, deixou um bilhete para a mulher e o filho.
“Desculpem, amo vocês mas tenho de ir embora. Não posso dar explicações. Um dia Leo vai entender (o Júnior fora abolido). Por favor, Leo, quando tiver seu próprio filho, dê-lhe o nome do avô, Leopoldo”.