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Crime sem vestígio

Adultos descobrem que o mundo com duas bolas é um verdadeiro saco

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Muitos homens devem a grandeza de sua vida aos obstáculos que tiveram de vencer. Eu sou o protótipo desta afirmação. Minha bola era meu mundo. Privado de privada, ainda menino, minha cesta básica não tinha carne. O banheiro público não tinha portas, permitindo que os bilaus pululassem daqui para lá, mas nunca de lá para cá. Sou e sempre serei hétero, daqueles com amplo conhecimento acerca da parte pélvica como o caminho mais perto da perdição. Apesar da ausência de portas e de trancas, normalmente usava esses banheiros como se tivesse cometido um crime. Nunca deixei vestígios.

Garoto criado com leite puro das tetas, cresci com a pecha de que só o rosto era indecente. Desconheço a razão, mas lembro que podia andar nu do pescoço para baixo que poucos se incomodavam. Saudades da velha e complicada infância. Passou, ficou para trás. A melhor época foi a adolescência e parte da juventude, períodos em que minhas brincadeiras preferidas eram as meninas. Nada de passar anel, pera, uva ou maçã, amarelinha ou três marias. Com elas, exclusivamente com elas, era anelar o anel, trenzinho, prá que lado que cai ou nada.

Trabalhei, trabalhei, mas tenho saudades do tempo em que, debaixo de sol ou de chuva, a pelada rolava a céu aberto. Embora eu tenha virado chacota no bairro e nas adjacências, o maior clássico desse tempo é inesquecível. O pau quebrava na racha da rua de baixo contra a rua de cima. Como meu lema era – e é – pior do que se arrepender é não ter lutado, jamais desisti de algo com medo perder. Por isso, embarquei na pelada errada. Não sei se me entendem, mas só depois de velho é que soube que a moça tinha o apelido de “Cocoricó” pela quantidade de vezes que botou os ovos para dentro.

Por conta do leite da teta, alcancei a idade adulta penando com os tais gentílicos, adjetivo que designa o país, a região, o estado, a província, o condado, o município, a cidade ou o povoado em que alguém nasceu, habita ou procede. Eu não sabia que nem sempre os gentílicos são definitivos, irreparáveis e sujeitos a correções. Por exemplo, não necessariamente os nativos das cidades de Ponta Grossa (PR) e Pau Grande (RJ) são bem-dotados ou portadores de robustez física. Da mesma forma, as meninas nascidas em Curralinho, também no Paraná, são analiticamente improdutivas. Muito pelo contrário.

Muito mais do que agora, naquela época um carro significava a metade da conquista. Foi aí que decidi empenhar as partes pudendas até conseguir meu Fuscão 1972. O bicho era osso duro de moer, mas me levou onde quis por seis anos. Rebaixado pela natureza dos pneus sem ar e, principalmente, pelo pavor que sempre tive de altura, cunhei um adesivo que marcou minha passagem pelas ruas desasfaltadas do bairro: Carro baixo em pista dura, tanto bate até que pula. Com motor 1.500, era daqueles que, no asfalto redondinho, transformava a monotonia das retas em poesia nas curvas. Era o que eu tinha. Por isso, valorizava o coitadinho como um daqueles melhores amigos das antigas.

Eu só tive prejuízo com ambos (o carro e o amigo), mas nunca pensei em me livrar deles. Um derramava óleo como se estivesse demarcando território. O outro era o próprio território. Como sempre acreditei em vida depois da morte, passei meu Fuscão adiante no dia em que ele, quase aos peidos, me jurou que iria ao encontro de Itamar Franco, o presidente que recuperou o Fusca após anos de seu primeiro funeral. Sob o argumento de que a vida é muito curta para dirigir carros sem graça, custei a acertar com outro automóvel. Passei pela Pampa, Saveiro Surf, Kombi até descobrir e recusar uma Lambe Rola reformada. Não sei onde estava com a cabeça, mas foi a senha para eu descobrir que o mundo só é bom porque é uma bola. Se fossem duas, seria um saco.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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