Quem manda é Momo
Agora é samba, frevo, axé, suor e máscaras
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Do ponto de vista do fanatismo religioso, brincar o carnaval é se associar ao Diabo e ao Satanás de rabo. Do ponto de vista da alegria, a folia de Momo é o período do extravasamento, da liberação do amor, da liberdade plena e, principalmente, do coroamento do estado de espírito. É claro que há exageros. E onde não há exageros no Brasil de nossos dias? A começar pelas bandalheiras de quem nos representa nos parlamentos e pela divisão política da família, dos amigos, dos vizinhos e dos colegas de trabalho, sobram exageros até nos locais em que supostamente se prega a paz.
Querem exagero maior do que um ministro do STF silenciosamente gravar uma reunião convocada pelos colegas para salvá-lo? E obrigar os pobres coitados a pagar o dízimo e sair das igrejas desejando o mal para o semelhante? E tentar um golpe após uma derrota partidária? Pior são os “santificados”, os que querem exigir que os “satanizados” pensem política e socialmente exatamente igual a eles. Hoje, sábado de carnaval, não é um vale tudo, mas é carnaval. Sejamos a alegria em forma de pessoas e ponto. Não gostar é um direito. Respeitar o gosto e o espaço do próximo é um dever.
Só para lembrar: o carnaval é feito de momentos de alegria e não de preocupação. É carnaval! É bloco, glitter e muita animação! Faz tempo que deixei de ser carnavalesco, mas continuo achando que a festa de Momo é a época em que as almas se libertam e os sonhos se tornam realidade. Tudo isso por meio das fantasias performáticas e multicoloridas. Sem querer querendo misturar folia com política, nunca é demais afirmar que fantasia é aquele troço que deputados e senadores tiram somente no Carnaval. Aliás, mesmo sabendo que o momento não é oportuno, sigo afirmando que, no carnaval e na política, a história da fantasia é a própria fantasia da história.
Que o digam os embromadores, os compradores, os defensores e as togas vinculadas ao Banco Master. Ou seja, quando o discurso é fantasia, a política vira carnaval permanente. Que bom que o reinado de Momo se transformou na festa na qual a alma dança e o coração canta. Ainda bem que o maior festejo popular do país desembarcou para minimizar a confusão eleitoral. São três, quatro, cinco e, às vezes, dez dias de folia. É o período em que ninguém é de ninguém. No palco iluminado da avenida, vale tudo, inclusive dançar homem com homem e mulher com mulher. No desfile, o pobre vira imperador, faraó, senador romano, presidente da República e até aviador.
Fanática por holofotes, a elite critica, mas não quer ficar fora da festa. Para isso, tira a roupa, topa ser frase de para-choque de caminhão e, se houver necessidade, se conforma em ser bucha de canhão de capitão malucão. E nós, simples mortais? Além de lembrar que os tantos dias de folia têm de ser de pura alegria, não devemos nos envolver com o que ocorre à nossa direita, tampouco à esquerda. No centro da festa, mil namorarão à esquerda, dez mil se casarão à direita, mas nós, os mortais, precisamos curtir, curtir, curtir e esperar outubro chegar. Se tivermos oportunidade, não deixemos para amanhã os beijos e os abraços que pudermos dar no carnaval.
Estúpido e mascarado para uns, desnecessário e diabólico para outros, mas poético, pandêmico e napoleônico para muitos, o carnaval, ao contrário do que dizem, não é uma fuga da realidade, mas a lembrança de que a realidade pode ser uma festa. Respeito quem não gosta, aceito os que dele se retiram e aprecio os que optam pelo sofá. A esses, desejo um ótimo descanso e, mesmo sem o ímpeto de outrora, peço apenas para que abram alas que eu quero passar. Como o pecado está do outro lado do Equador, não se preocupem, pois volto para votar. Aos críticos e aos invejosos, lembro que, caso só restem cinzas na quarta-feira, é porque o carnaval pegou fogo.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
