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Visconde no botequim

Água, ovo e pão facilitam o conto do vigário

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Foto Acervo Pessoal

Na esquina do Boulevard 28 de Setembro com Rua Visconde de Abaeté, no coração de Vila Isabel, um dos bairros mais simpáticos do Rio de Janeiro, ocorreu essa história. Ali era o endereço do Bar do Expedito. Saudoso Expedito, português de Póvoa do Varzim, aposentou-se e foi morar com a esposa no Espírito Santo. Ouvi o relato do próprio Expedito e do Zé Amaro, morador das redondezas que sempre batia ponto no local.

Foi próximo de uma semana santa que apareceu ali aquela figura. Terno cinza-claro impecável, chapéu de feltro, os sapatos mais brilhosos que alguém já tinha visto. Trajava com apuro e elegância. Os punhos da alvíssima camisa eram guarnecidos com abotoaduras douradas, com pedra vermelha em cada uma, idêntica à ostentada em portentoso anel.

A estampa, anacrônica e curiosa, parecia totalmente deslocada do ambiente descontraído daquele bar da Zona Norte. Era mais compatível com um chá na Colombo, após uma incursão no Real Gabinete Português de Leitura, ou então para um convescote na Academia Brasileira de Letras. Mas foi ali mesmo, no Bar do Expedito, que ele entrou.

Bengala com castão em forma de cabeça de cavalo, o cigarro levado numa piteira. Quem visse, esperaria que ele tirasse um pince-nez do bolso externo do paletó e um relógio do bolsinho do colete. E foi exatamente isto que ele fez ao se sentar numa das mesas vagas, uma pequena, de dois lugares, mais afastada da porta do bar que dava para a rua. Ali tirou de um dos bolsos um pequeno livrinho que passou a ler. Nessa leitura concentrou-se, no mínimo, quarenta minutos, até tirar os olhos do objeto.

Expedito estava no balcão, o garçom Gomes estava encostado numa das portas, absorto com as cenas da rua, e Zé Amaro ainda não tinha aparecido ali neste dia.

O exótico freguês, algo entre cômico e vetusto, levantou o dedo olhando em direção ao Expedito e dali mesmo chamou, em voz grave e aveludada:

“Senhor comerciante, tende a bondade de atender-me, por obséquio.”

Expedito, sem maiores mesuras, disse apenas um “já vai”, e esperou que Gomes se voltasse para o novo freguês. Como o garçom não se virasse, Expedito lançou na direção dele um pano de prato, chamando sua atenção. Gomes se reconectou ao mundo real e, olhando confuso para os lados, rapidamente dirigiu-se à mesa da curiosa figura perguntando:

“O que vai ser, patrão?”

“Boa tarde, cavalheiro…” – enquanto o freguês desenvolvia a frase, Gomes chegou a olhar para os lados para procurar o “cavalheiro” – “… queira fazer a fineza de me trazer o cardápio.”

“O cardápio está ali, chefe” – respondeu Gomes, apontando para uma lousa na parede onde, em giz e razoável caligrafia, estavam escritas as poucas opções do boteco.

“Trazei então um ovo cozido, um pão francês e, para beber, gostaria de uma água mineral bem gelada, é possível?”

Havia algo hilário na forma com que o freguês se dirigia ao simpático Gomes. Não que estivesse errado, mas é que ele não estava acostumado com aquela educação e tipo de tratamento. Não tardou nem um minuto para que uma garrafa bem gelada de água mineral estivesse sendo aberta na mesa do homem, sorvida de um só gole após Gomes despejá-la naquele copo americano típico. Em seguida, chegaram o ovo cozido e o pão, que Expedito dispusera numa pequena cestinha.

Era notável a dignidade com que o inédito freguês picava o pão, descascava aquela simples iguaria e levava-a à boca, entremeando o antepasto com goles da água mineral. Ia comendo devagar, sempre mantendo os olhos curiosos no ambiente, fixados ora no movimento da rua, ora nos transeuntes que passavam, ora nos demais fregueses. Era como se experimentasse o mais nobre prato de um chef celebrado.​

Ao finalizar, fez um gesto que Gomes, desta vez, logo notou.

“Informai quanto devo eu, jovem rapaz” – disse tirando de um bolso interno do paletó uma carteira surrada, aparentemente de couro de jacaré.

A conta havia dado 7 reais e 80 centavos. Ele deu a Gomes uma nota de dez e, ao receber de volta o troco, devolveu, altivo, 20 centavos ao garçom, que, ironicamente, agradeceu a generosidade, ao que, sério e grave, o freguês respondeu ao retirar-se:

“Eu é que devo agradecer a amabilidade do serviço. Até breve volta!”

Mal o homem virou as costas para desaparecer entre os demais anônimos da rua, Expedito e Gomes se entreolharam e o patrão disse, com sua voz lusíada:

“Puxa… É cada figura que aparece por aqui. Que tipo mais diferente. Quase uma hora pra me pedir água mineral, pão e ovo…”

Os dias se sucederam e o distinto freguês passou a frequentar o bar, sempre mais ou menos à mesma hora, sentando-se na mesma mesa. Ora concentrado na leitura de um opúsculo, doutras vezes lendo os jornais mais populares. Mas sempre repetia o ritual. Após aproximadamente quarenta minutos, pedia sua água mineral, seu ovo cozido e um pão francês. Numa véspera de feriado, em que haveria a transmissão de um jogo de futebol do Flamengo, o bar ficara mais cheio do que de costume e, lá tendo chegado, o freguês viu a mesa ocupada por um casal. Antes que Gomes ou Expedito fizessem qualquer movimento para oferecer-lhe outra mesa, ele se retirou, sem demonstrar qualquer contrariedade, e foi-se embora.

“Só me faltava essa, agora ficou ofendido porque acha ter mesa cativa?”

“Deve ser mania dele, Seu Expedito. Ele é diferente mesmo.”

Prosseguiu a rotina de visitas ao botequim o estranho homem, sempre naquele terno cinza-claro, o invariável chapéu e os modos impecáveis. Em princípio, era uma curiosidade. Uma ave rara. Com o tempo, Expedito foi perdendo a paciência com o visitante, que jamais variava o pedido. Não tardou para a figura ser notada por outros frequentadores do botequim, que, por galhofa, e sabendo da implicância de Expedito, passaram a chamá-lo de “freguês de ouro”. Mas, pelo tempo em que ficava sentado e pelo pouco dinheiro que gastava, qualquer comerciante passaria a ficar incomodado. Até Gomes, cujos demais fregueses tratavam com certa grosseria ou indiferença, não se compadecia da lhaneza de que era objeto e, ironicamente, agradecia os 20 centavos que sempre recebia de gorjeta, ao que, como a pronunciar uma máxima moral de proverbial sabedoria, o freguês redarguia:

“Cada vintém sabiamente poupado, meu rapaz, é caminho seguramente pavimentado para a mais autêntica prosperidade.”

De vez em quando os outros fregueses do boteco faziam mesas de baralho, damas ou dominó. Um dia, Zé Amaro ousou interromper a leitura do “freguês de ouro” para lhe convidar:

“Arrisca uma partida de sueca conosco, seu moço?”

De pince-nez e expressão impávida, o freguês tirou seus olhos de um antigo livro de capa avermelhada para, esnobe, dizer a Zé Amaro:

“Declino da gentil oferta, meu patrício. O jogo a dinheiro polui a alma do mais escorreito dos homens! Prefiro ficar alheio a tal diversão. Estou absorvido por elevada literatura.”

Um dia, ao avistá-lo entrando no bar, Expedito já separava o ovo cozido e o pão, quando Gomes voltou da pequena mesa com uma expressão diferente.

“Hoje vai variar o cardápio, patrão. O moço quer salame fatiado e uma cerveja.”

Com o semblante mais diferente ainda, Expedito olhou para Gomes com ar de riso.

Em vez de ler, naquele dia o freguês quis ir logo ao salame, servido por Gomes numa pequena travessa de inox, com duas metades de um limão e o indefectível pãozinho. Sorveu toda a garrafa da cerveja bem gelada e deixou dois reais e vinte centavos inteiros de gorjeta.

No dia seguinte, na hora do costume, não apareceu. E deu um dia, dois, três… Nada do “freguês de ouro”. Apesar de suas manias e da sua figura estranha, Expedito até sentiu falta. Afinal, apesar de gastar pouco, era um freguês certo.

“Será que morreu ou ficou doente ao trocar o ovo pelo salame?” – pensou o português.

Já fazia uns 8 dias que o “freguês de ouro” sumira, quando, de tardezinha, enquanto os outros habituais frequentadores jogavam dominó, toca o telefone do bar, daqueles telefones antigos, de baquelite preto, pendurado na parede. Expedito atendeu e, do outro lado, estava uma voz fina e anasalada com a qual se desenvolveu o seguinte diálogo:

“Pronto!”

“Alô! É do bar do Expedito?”

“Daqui mesmo! A falar Expedito, um seu criado.”

“Senhor Expedito, queria saber se tem ido aí o Senhor Visconde. Sou jornalista e preciso muito fazer uma entrevista com ele. Disseram-me que eu o encontraria aí, que é um estabelecimento distinto, no qual ele fica sempre muito à vontade.”

“Visconde? Que visconde?”

“O Senhor Visconde de Monteblanco. Um cavalheiro assim, de uns sessenta anos, anda sempre de terno, usa pince-nez e costuma ficar lendo aí no seu botequim. Ele é um importante literato, poeta, intelectual internacionalmente conhecido. Consultor da ONU em várias áreas do conhecimento.”

“Ah, sim, ele vinha sempre aqui. Mas faz uns dias que não o vejo. Não sabia que ele era visconde. Nem que era liberado.”

“Literato! Literato. Gente de letras, que faz livros. Ele não tem ido aí? Ah, já sei! Ele deve estar retirado em uma de suas fazendas de gado no Mato Grosso. Ou visitando a lavoura de café no sul de Minas. Mas, por favor, Senhor Expedito, seja discreto. O Visconde de Monteblanco não gosta de propaganda, nem que saibam de sua importância. Ele é muito modesto. Vou ver se consigo novamente entrar em contato com o secretário particular do Senhor Visconde. Muito obrigado, passar bem.”

Expedito ia continuar a conversa para perguntar coisas, satisfazer a curiosidade, perguntar se queria deixar recado, mas o interlocutor desligou rapidamente.

Em poucos minutos, Expedito já havia dado com a língua nos dentes e todos no bar sabiam da importância do nobre cliente, que dali para frente deveria ser tratado com muito respeito e consideração por todos. E com a advertência do dono do bar:

“Ai de quem desrespeitar o Senhor Visconde se ele voltar aqui! Ele é um cliente importante, não é dessa ralé de bêbados.”

Dali em diante, Expedito separaria os ovos mais bonitos e frescos, de casca mais forte e os pães mais macios para servi-lo. E a água mineral? Esta seria da marca mais nobre e suas garrafas, guardadas no fundo da geladeira para ficarem triscando de geladas.

Cabia observar se o Visconde voltaria. E, eventualmente, ele voltou. E foi tratado sempre cheio de rapapés e respeitos. Jamais houve freguês tão paparicado naquele pé-sujo, mesmo que ele gastasse pouco comendo seu ovo, seu pão e bebendo sua água.

Afinal, não era um freguês qualquer. Era um cliente! O Senhor Visconde.

O que ninguém descobriu é que, imitando outra voz, o próprio exótico cavalheiro havia feito o telefonema de um bar no Engenho de Dentro, onde, naqueles dias de ausência no Expedito, ele resolvera frequentar porque soubera haver ali um mocotó sensacional e uma ótima sinuca. E não há nada de mal em comer um mocotozinho e se arriscar no bilhar depois de economizar comendo ovo durante tantos dias…

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