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Tipo peculiar de afeto

Algumas pessoas só gostam de você quando você cabe na expectativa delas

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe um tipo peculiar de afeto: aquele que funciona enquanto você permanece exatamente onde colocaram você.

Se muda, incomoda.

Se cresce, ameaça.

Se diz não, decepciona.

Se estabelece limites, chamam de arrogância.

Se deixa de aceitar certas coisas, perguntam o que aconteceu.

Como se a pessoa que você era tivesse assinado um contrato de permanência.

Bourdieu provavelmente nos ajudaria a perceber que relações também carregam expectativas, posições e formas de poder.

Nem toda relação é equilibrada.

Às vezes alguém gosta menos de quem você é do que da função que você desempenha na vida daquela pessoa.

O amigo que sempre escuta.

A mulher que sempre resolve.

O profissional que nunca recusa.

O familiar que está sempre disponível.

Quando essas pessoas começam a dizer “não”, o sistema apresenta instabilidade.

É quase engraçado.

Você pode passar dez anos sendo generoso e ninguém comenta.

Diga não uma vez e imediatamente surge uma investigação parlamentar.

Talvez estabelecer limites revele mais sobre as relações do que sobre quem estabelece o limite.

Porque algumas pessoas não sentem falta de nós.

Sentem falta do acesso que tinham a nós.

É uma diferença dolorosa.

Mas libertadora.

Nem todo afastamento é perda.

Alguns são apenas reorganizações necessárias da vida.

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