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'Sem volta'

Ambição de Trump pela Groenlândia ameaça implodir bloco da Otan

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Autor/Imagem:
Antônio Albuquerque - Foto Reprodução/MSN Daily

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (20) que “não há volta atrás” em seu objetivo de assumir o controle da Groenlândia, recusando-se explicitamente a descartar o uso da força para garantir a soberania sobre a ilha ártica. A declaração, somada a ataques verbais contra aliados históricos, aprofunda uma crise sem precedentes dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e levanta, nos bastidores diplomáticos, o temor de uma implosão da aliança que sustenta a arquitetura de segurança do Ocidente desde o pós-guerra.

A ambição de Trump — amplamente divulgada em redes sociais e reforçada por imagens geradas por inteligência artificial que o retratam hasteando a bandeira americana na Groenlândia — atinge diretamente a Dinamarca, país-membro da OTAN e detentor da soberania formal sobre o território. Ao colocar em xeque a integridade territorial de um aliado, Washington rompe um dos pilares centrais da aliança: o compromisso de defesa mútua e o respeito entre seus integrantes.

Fontes diplomáticas europeias avaliam que, caso a escalada retórica se transforme em ação concreta, a OTAN entraria em uma crise existencial. Afinal, a aliança militar seria forçada a lidar com um cenário inédito: o maior poder militar do bloco ameaçando, direta ou indiretamente, um de seus próprios membros.

“Como já deixei bem claro para todos, a Groenlândia é imprescindível para a segurança nacional e mundial. Não há como voltar atrás — nisso, todos concordam!”, declarou Trump após conversar com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, numa fala que foi interpretada por chancelerias europeias como uma tentativa de impor um fato consumado ao bloco.

Para reforçar sua posição, Trump divulgou imagens simbólicas que ampliaram o desconforto entre aliados. Em uma delas, aparece discursando diante de líderes globais ao lado de um mapa que inclui o Canadá e a Groenlândia como parte dos Estados Unidos — gesto visto como provocativo e politicamente explosivo.

A crise militar se soma a uma nova ameaça de guerra comercial transatlântica. Trump vazou mensagens privadas, incluindo uma do presidente francês Emmanuel Macron, que questionava abertamente a ofensiva americana. Em resposta, o presidente dos EUA voltou a ameaçar tarifas de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses, reacendendo tensões que já haviam abalado mercados e cadeias produtivas no ano passado.

A União Europeia reagiu com dureza. Entre as opções em estudo está um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros em importações americanas, com entrada em vigor automática a partir de 6 de fevereiro, além da possível ativação do chamado Instrumento Anticoerção (ACI) — mecanismo ainda inédito que permitiria restringir investimentos, serviços financeiros e o acesso de empresas americanas a contratos públicos no bloco.

“Esta não é uma questão apenas do Reino da Dinamarca, mas de toda a relação transatlântica”, afirmou a ministra da Economia da Dinamarca, Stephanie Lose, antes de uma reunião de ministros da UE em Bruxelas. Segundo ela, o episódio ultrapassou o campo diplomático e se tornou um teste decisivo para a coesão do Ocidente.

Nos Estados Unidos, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentou minimizar a crise, classificando como “histeria” as reações europeias. À margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos, disse acreditar que uma solução será encontrada “que termine muito bem para todos”, pedindo calma aos aliados.

Ainda assim, o tom conciliador de Bessent contrasta com a leitura feita em Bruxelas. Em seu discurso no mesmo evento, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sinalizou que a sucessão de choques geopolíticos — incluindo a postura americana — força a Europa a repensar sua dependência estratégica.

“Só conseguiremos aproveitar esta oportunidade se reconhecermos que esta mudança é permanente”, afirmou, numa fala interpretada como um aviso claro: a UE pode estar se preparando para um cenário em que a OTAN, como hoje é conhecida, deixe de ser um pilar confiável da segurança europeia.

Nos corredores diplomáticos, a pergunta que ganha força é direta e incômoda: se um aliado pode ameaçar outro em nome de interesses estratégicos próprios, até que ponto a OTAN ainda existe como aliança — e não apenas como uma sigla esvaziada por dentro?

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