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O fabuloso destino de Aderbal Vaz Ferreira (Epílogo)

Amizade, amor e estrelato

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Comodamente instalado na casa dos Drummond, Aderbal estava feliz.

Com o passar do tempo, ele foi se tornando um íntimo interlocutor dos donos da casa.

Norberto apreciava sobremaneira a verve e as metáforas formuladas pelo chef a partir da sua especialidade, a arte da culinária.

— Uma comida refinada e preparada com inspiração é uma das maiores dádivas que aproxima os homens da felicidade espiritual e da benemerência do Todo-Poderoso.

— A humanidade estará redimida no dia em que todos os seres humanos puderem desfrutar do poder cósmico de refeições equilibradas.

— Pode-se avaliar o caráter de alguém pelo seu gosto culinário, nunca falha!

Já, Helena, mostrava-se extasiada com o charme maduro e a delicadeza de fala do bem-apessoado cinquentão.

Incentivado pelo casal, Aderbal tornou-se o chef oficial da residência Drummond e, todos os dias, preparava pratos refinados e inovadores para os almoços e jantares da família que agora já integrava.

— Aderbal, hoje à noite vamos receber um convidado importante. Gostaria que você preparasse um jantar especial e que também participasse da nossa conversa.

— Será um prazer, Beto! Como se chama o seu convidado e o que ele faz?

— O nome dele é Fernando, é o Presidente da República.

Depois de alojada a comitiva do presidente, Norberto apresentou Aderbal ao primeiro mandatário da República.

— Nando, como seu amigo e doador, devo preveni-lo de que Aderbal, além de extraordinário chef, é um comentarista afiado. As suas observações filosóficas e políticas são flechas certeiras.

Servido o jantar, Norberto pediu que Aderbal fizesse um comentário sobre a gestão do Presidente.

— Bem, Nando, eu diria que todos os pratos devem ter o seu sabor e a sua cor em perfeita harmonia. Essa combinação é que apetece a alma dos comensais. Você acha que está sabendo fazer bem esse arranjo?

Desconcertado com a intimidade do tratamento e com a ácida semântica contida na pergunta do chef, o Presidente preferiu desconversar.

Terminado o encontro, Norberto comentou com Aderbal:

— Você foi preciso e tocou na ferida: a popularidade dele está em queda acelerada porque o governo não consegue harmonizar emprego, crescimento e controle da inflação.

O presidente ficou tão impressionado com a habilidade retórica de Aderbal que, talvez inadvertidamente, citou-o em um pronunciamento à nação no dia seguinte:

— Como diz o meu insigne amigo Aderbal Vaz Ferreira, é preciso que cada prato tenha o seu sabor e a sua cor em equilíbrio, pois é esse arranjo que apetece a alma dos comensais…

Dali para a frente, a mídia especializada em cobertura política correu para tentar descobrir quem era Aderbal Vaz Ferreira.

— Amigo do presidente? O que ele faz, onde mora, o que pensa, é filiado a algum partido?

No mesmo dia, Norberto chamou Aderbal e lhe fez um pedido Sui generis:

— Aderbal, gostaria que você acompanhasse Helena em uma recepção para a qual fomos convidados. Ela ainda é jovem e precisa se distrair, eu já não tenho mais paciência para essas chatices. Posso contar com você?

— Será um prazer acompanhá-la, Beto.

Rindo, Norberto comentou:

— Vou adorar ler as fofocas dos jornalistas e influencers…

Quando Aderbal teve o nome anunciado por Helena na recepção, um incandescente burburinho tomou conta do salão.

— Então ele é o misterioso amigo do presidente? E também é amigo de Norberto Drummond…

Durante toda a noite, Aderbal foi cercado, paparicado e inquerido para opinar sobre os mais diversos assuntos. Habilmente, ele respondia com metáforas filosóficas-culinárias que deixavam os seus interlocutores encafifados.

Ostentando um look espetacular, Helena, orgulhosa do sucesso do amigo do casal, fazia questão de permanecer ao lado do superstar com o braço sempre enganchado no dele.

Quando chegaram em casa, Helena e Aderbal beijaram-se nas faces para desejar boa noite um ao outro.

Há algum tempo, ela e Norberto dormiam em quartos separados por sugestão do marido.

Antes dos dois se dirigirem aos respectivos aposentos, Helena falou para o acompanhante:

— Obrigado e parabéns, Aderbal, você nos encheu de orgulho essa noite!

Exausto pela longa noite de conversações, Aderbal tomou banho, apagou a luz e estirou-se de bruços na confortável cama de casal. De súbito, sentiu delicadas mãos femininas massagearem suavemente as suas costas.

Surpreendido, ele virou-se em um reflexo abrupto e quase desequilibrou Helena. Ela soltou um gritinho assustado e murmurou:

— Sou eu, Aderbal!

— Helena? Está tudo bem com você?

Encabulada, a mulher replicou:

— Sim, me perdoe, eu não resisti ao desejo de estar com você!

Calmamente, Aderbal levantou-se, acendeu a luz do quarto e contemplou Helena vestida com uma sumária camisola vermelha. Impávido, ligou a TV e falou para a bela:

— Vamos ver TV?

Ruborizada e ainda mais sem jeito, Helena respondeu:

— Claro, mas me diga uma coisa, você não gosta? Isso é… não gosta de mulheres?

Sem nenhum constrangimento, Aderbal respondeu:

— Helena, eu gosto de ver!

— Gosta de ver? Então está bem…

Ato contínuo, ela sintonizou a TV em um canal de músicas sensuais, começou a dançar e, lentamente, jogou ao chão as suas vestes sumárias.

Diante daquela visão espetacular e do perfume para lá de afrodisíaco que a musa exalava, Aderbal experimentou um inédito arrebatamento a lhe queimar todos os poros do corpo. Então, em um impulso irresistível, ele puxou Helena para a cama e finalmente conheceu um paraíso para além da culinária.

Após o trio de amigos tomar o café da manhã no dia seguinte, Norberto falou gravemente para Aderbal:

— Caro Aderbal, preciso conversar com você. Querida, desculpe, é uma conversa entre homens.

— Claro, querido, fiquem à vontade!

Helena lançou um olhar lânguido para Aderbal, levantou-se e saiu da sala de refeições.

— Aderbal, meu querido amigo, vou abrir o meu coração com você…

— Pode falar, Beto, estou ouvindo.

— Olha, a dolorosa verdade é que eu estou nas últimas. Estou velho e muito em breve não estarei mais entre vocês. Helena é a minha principal herdeira, ela ainda é jovem e merece ser mais feliz do que já foi ao meu lado. Quero que cuide dela, se me entende! Ajude-a também a tocar os meus negócios, só confio em você para isso.

Serenamente, Aderbal respondeu:

— Claro, Beto! Fique certo de que farei a sua vontade da melhor forma que eu puder.

— Ótimo, fico-lhe muito grato! Enquanto isso, continue a acompanhá-la nas recepções, soube que vocês fizeram muito sucesso ontem à noite.

Naquela semana, Aderbal foi convidado para participar do mais prestigiado programa de entrevistas da televisão brasileira.

— Nosso convidado de hoje é uma recente e misteriosa celebridade que está intrigando todo o país, Aderbal Vaz Ferreira, conhecido como “o amigo do presidente”. Aderbal, qual é a sua atividade profissional? Como você conheceu o presidente e há quanto tempo são amigos?

— Bem, eu sou um anônimo apreciador de culinária. O presidente e eu nos conhecemos na casa de um amigo comum que também é um entusiasta da Gastronomia. Em relação ao tempo, isso é muito relativo, pois assim como os alimentos, a vida também é feita para ser eternamente degustada.

— Sensacional, um chef filósofo! Falando do seu anonimato, você tem consciência de que isso agora é coisa do passado?

— É mesmo? Que bom!

— Maravilhoso! Gente, o nosso convidado é a inteligência, a simpatia e a empatia encarnadas em uma só pessoa. Aderbal, amizade à parte, como você vê a política do presidente no atual momento que o país atravessa?

— Acho que o presidente está se esforçando para ser um bom chef e entregar uma boa culinária… Mas qual política?

Nesse momento, o estúdio irrompeu em demorados e intensos aplausos.

— Magnífico! Agora um intervalo para os nossos comerciais.

O programa registrou recorde de audiência. Os produtores, maravilhados, comemoravam.

Nas suas residências, os telespectadores comentavam o desempenho do singular entrevistado:

— Quem é esse tio aí? perguntava um adolescente para a namorada.

— É Aderbal, o amigo do Presidente, eu acho o cara brilhante!

— Que homem charmoso, educado e gentil, suspiravam as donas de casa.

— Ele parece saber do que fala, dizia-se nos bares.

Ao que tudo indicava, Aderbal não conseguiu impressionar somente Jucineide, a senhora da limpeza que havia prestado serviços na casa do doutor Otávio:

— Não consigo acreditar… Esse país é mesmo uma terra dos brancos! Esse rapaz sempre foi um asno semianalfabeto que nunca ligou lé com cré!

Nas coordenações dos comitês eleitorais, a histeria por informações sobre a nova celebridade se intensificou. Todos mergulharam na internet para buscar dados sobre a vida de Aderbal Vaz Ferreira.

Todavia, para perplexidade geral, os nomes que apareciam nas pesquisas nem de longe correspondiam ao perfil do Aderbal em questão.

Nada, nem notícia de alguma atividade política ou profissional, nem certidão de nascimento, CPF, RG, CNH, IR ou qualquer outro registro oficial.

— Inacreditável, ele simplesmente não existe, constatavam os pesquisadores, estupefatos.

Naqueles dias, ocorreu o que já era esperado, Norberto finalmente foi vitimado pelas inúmeras moléstias de que era portador.

O enterro do grande e influente empresário foi concorrido, reunindo expressivas lideranças econômicas e políticas, incluindo o Presidente da República.

Enquanto o Presidente — em campanha pela reeleição — lia um monótono discurso em homenagem ao falecido que quase ninguém ouvia, um circunspecto Aderbal e uma resplandecente Helena eram cercados por uma pequena multidão que fazia recair sobre o futuro casal uma chuva de condolências, sorrisos, abraços e apertos de mão.

Reunidos em um círculo no canto do salão, observando a cena, os próceres do partido do Presidente consolidavam uma certeza cada vez mais cristalina:

— O Fernando que nos perdoe, mas se quisermos ter alguma chance de vencer essa eleição, a nossa única opção chama-se Aderbal Vaz Ferreira!

Parecendo alheio à movimentação em sua volta, Aderbal olhava fixamente para o caixão e pensou do dia em que tivera que deixar a casa do doutor Otávio:

— Morrer… por que isso sempre acontece com os velhos?

Logo essa reflexão amarga deixou a sua mente. Seu coração se alegrou quando pensou no que havia combinado com Helena: a recepção do casamento já marcado para breve seria uma réplica da “Festa de Babette”.

…………………..

J.Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS” – Disponível no link da Estante Virtual:

.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

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