Vida na redação
Analógico por definição, só falta ao repórter contar estupro da mulher inflável
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Depois de uma certa bagagem física, a gente aprende que o tempo é apenas um irmão mais velho e nem sempre conspira a nosso favor. Não fujo dele, mas ele também não me procura. Este é o nosso compromisso. Sábio, perspicaz, silencioso, divino, diabólico e meteórico quando necessário o sujeito da minha narrativa é o correio da vida. No dia D e na hora H, ele trará tudo aquilo que estiver destinado para cada um de nós. Enfim, o tempo tem duas caras. Caso seja bem aproveitado, será um grande aliado; se não, será seu pior inimigo. Em algumas situações, ele é somente uma questão de tempo. Em outra, o tempo é a questão. Filosofia à parte, melhor não perder tempo com o pouco tempo que ainda tenho.
Lembro do fim da juventude, quando, aliviado, me vi obrigado a escolher um futuro sem matemática, física, álgebra, trigonometria e afins. Embora não tivesse um português castiço – continuo sem tê-lo -, optei pelo jornalismo após longo período de indecisão, que é a pior das decisões. A época era de nuvens negras, dias e noites sombrios e uma vida desesperadamente indefinida. Do temporal, vieram minha escolha, a sustentação das ideias, as expectativas, as consequências e, hoje, a certeza de que não estava equivocado. Apesar dos percalços, jamais me imaginei inventando algo que pudesse dar margem de estudos aos técnicos da Nasa. Cresci escrevendo e, no momento da chegada do tempo, partirei com a frase da lápide já definida “Zé fini”.
Analógico por definição e digital por convicção, tive experiências mágicas, algumas antológicas e poucas pedagógicas. Uma delas ocorreu em um dos tribunais superiores por onde passei. Estava eu na sala de entrevista da Corte, quando um jornalista Coca-Cola me fitou respeitosamente, reclamou da falta de pontos de rede para todos (eram muitos) e perguntou de chofre como eu e os da minha geração se me virava no jornalismo sem celular, WhatsApp, Facebook, Instagram, computador (laptop), canais de voz, fibra ótica, TVs de led na redação e que tais. Na condição de porta-voz do tal tribunal, o último dos três em que atuei, respondi da forma mais coloquial possível: Como não tínhamos nada, éramos obrigados a fazer jornalismo na mais pura essência.
Em outras palavras, por conta da ausência tecnológica, a proibição profissional era um tipo de comprometimento sacerdotal com o leitor de então. Sob pena do ostracismo perpétuo, não utilizamos o hoje célebre Control C+Control V. Por isso, não havia jornalistas descartáveis. No máximo, a aposentadoria em editorias menos nobres. Nossas matérias datilografadas em máquinas sem corretivo eram corrigidas com xxxxxxxxxx nas laudas de 25 linhas cada uma. Se a cobertura fosse distante (no Rio o normal são 20, 30 km, fora o trânsito), o briefing era uma batalha campal com os colegas de TV e de rádio, os quais normalmente tinham prioridade no orelhão da esquina ou nos telefones públicos do açougue ou da padaria mais próximos.
Pior do que a briga pelo espaço, só perceber que, no meio da ligação, não dispúnhamos mais de fichas. O que fazer? Esperar o esporro do chefe de reportagem logo na entrada da redação e não se incomodar. Sorte que a maioria dos repórteres era safa e passava os 30, 40 minutos dentro do carro do jornal escrevendo a matéria no subconsciente. Na cabeça não dava, pois ela estava ocupada com a segunda ou com a terceira pauta do dia. Inimiga da perfeição, mas parceira da disposição, a pressa nos impunha escrever normalmente ao lado do editor da página. Se o lead estivesse em desacordo, antes mesmo do segundo parágrafo e com um simples puxão, o chefe arrancava a lauda da máquina e nos obrigava a reescrever.
Além da “fiscalização” severa, corríamos contra o tempo para dar conta da tarefa. Sempre o tempo. Ganhávamos para incomodar. O desafio diário era não ter perfil. Escrevíamos sobre tudo e todos. Vale registrar que cada veículo tinha suas próprias pautas e que lead coletivo é uma invenção da geração Coca-Cola. Sou de um tempo em que, conforme o jornal, se matava a mãe sem motivo justo. Violada no auditório significava somente uma briga entre o cantor, seu violão e um grupo chato da plateia. O cachorro que fez mal à moça não passava de um hot-dog estragado. Nada, porém, igual ao estupro da mulher inflável. Essa história eu conto depois. Talvez após as cinzas de quarta-feira.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras