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Parente abastado

Aniversário do tio Aristarco

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Aniversário do tio Aristarco, que chegava aos improváveis 98 anos, a família se reuniu. Ninguém se atreveu a faltar, pois o velho era abastado e, por desventuras amorosas ao longo da vida, não foi possível conceber herdeiros. Dessa forma, cada um a seu modo, dava um jeito de adular o milionário.

Cada qual utilizava técnicas para tentar se aproximar do aniversariante, seja para elogiar por conta da roupa, seja por causa do novo corte dos parcos cabelos, que era o mesmo desde sempre, seja até mesmo em razão da incrível memória, apesar dos óbvios sinais de senilidade do sujeito.

— Tio Aristarco, queria eu chegar à sua idade com essa capacidade de não se esquecer de nada.

— Obrigado, Fernanda.

— Tio, eu sou a Isadora.

— Ah, Isabela, me desculpe.

— Isadora, tio!

— O quê?

— I-SA-DO-RA!

— Isadora?

— Isso, tio! Isadora!

— Ah, eu tenho uma sobrinha chamada Isadora, mas acho que ela não veio.

— Tio, a Isadora sou eu!

A festa prosseguiu com confusões do tipo, até que Júlio, um dos mais bajuladores e que gostava de enaltecer as qualidades de músico do tio, apesar do velho nunca as ter possuído, pegou um violão no canto da sala.

— Tio, toca aquela música que o senhor sempre tocava pra mim quando criança.

— E eu sei tocar?

— Ih, como sabe! O senhor só não é profissional porque não quer.

De tanto Júlio insistir, tio Aristarco pegou o violão. Dedilhou as cordas, que pareciam desafinadas. Foi o bastante para arrancar aplausos entusiasmados da plateia menos honesta que poderia ser encontrada no quarteirão.

— Tio, o senhor é o melhor!

— Maravilha, tio Aristarco!

— Quem já foi rei jamais perde a majestade.

— É como aprender a andar de bicicleta. Nunca se esquece.

Enquanto os adultos teciam os mais absurdos elogios ao ricaço, eis que Maria Flor, de oito anos, pegou o violão que havia sido deixado sobre o sofá. Ela o ajeitou no colo, quando Augusto, um dos tios, a questionou:

— Você toca violão?

— Toco.

— Não sabia.

— Pois toco, tio.

— E desde quando?

— Hum… Deixa eu pensar… Hum… Ah, desde ontem!

Silêncio sepulcral, até que tio Aristarco sorriu. Todos sorriram. O velho gargalhou, todos gargalharam. Só quem não pareceu gostar foi a menina.

— Gente, eu só quero paz!

Como podia uma coisa daquelas? Cadê os pais daquela garota para lhe aplicar um corretivo? Novo silêncio. Todos dividiam os olhares furiosos sobre a garota e de expectativa sobre o tio Aristarco.

A mudez era tamanha, que era possível ouvir o som da revolta, caso ela o possuísse. E quando o clímax começou a instigar alguém a se pronunciar, eis que tio Aristarco aplaudiu a pequena Maria Flor. Levou um átimo até que todos fizeram o mesmo.

A criança se aproximou do parente, lhe deu um beijo na face descarnada e soprou no seu ouvido:

— Feliz aniversário, tio Aristarco.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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