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Traição e chuchu tem em todo lugar

Ano de eleição está deixando o povo no ‘Mundo da Lua’

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

No país do futebol e das maravilhas não é exagero dizer que o povo brasileiro anda no mundo da lua. Também não assusta ninguém afirmar que fulano recebeu ou deu um abraço de tamanduá. Abrir o chão e entrar dentro nem de longe lembra a saga das formigas ou dos tatus. Conforme ensinam os mestres do português, são as chamadas figuras de linguagem, recursos de expressão que, mais do que exageradas, enriquecem o vocabulário, tornando-o mais expressivo e aberto à interpretação. Elas podem ocorrer em diferentes formas, entre elas comparações, substituições, associações e combinações de sentidos. O pior deles é o sentido figurado, aquele   em que vivem os que torcem contra a própria pátria.

Interessante é que, para determinados brasileiros, trair a pátria virou preocupação com o povo. O que fazer se a própria Constituição define como imperativo o direito à liberdade de expressão? Nada, além de relaxar e gozar. O problema do português do Brasil é igual ao cidadão brasileiro, isto é, ambos precisam ser estudados com lupa. Abundantes e, às vezes, exabundantes, os excessos da língua nos leva a acreditar em determinadas colocações. Por exemplo, quando alguém diz que ciclano quase morreu de tanto estudar. Engraçadas não fossem improváveis ou capazes exclusivamente por meio da Inteligência Artificial são as hipérboles morrer de sede, chorar um rio de lágrimas e o meu mito é um agente da gente.

Mais simpático aos ditados populares e à possibilidade de buscar semelhança entre elementos diferentes, prefiro as metáforas e os provérbios. Antigamente injeção na testa era força de expressão. Hoje, o mais comum na testa são os chifres. Fora os de tarraxa, eles são reais e normalmente brotam sem o nosso conhecimento. Aliás, quem nunca teve esteja certo de que um dia terá. Por isso, é bom alertar os bons maridos que nem sempre é alvissareiro carregar água na peneira para as esposas. Elas são uns docinhos de coco, mas, se formos do tipo mamão com açúcar, elas podem nos levar ao fundo do poço.

Nada demais, pois ruim com elas, pior sem elas. Nem sempre a vida de casado é um conto de fadas. Também não vale a pena achar que qualquer desentendimento é a ponta de um iceberg. Tenhamos sempre em mente que uma boa mulher é coisa para se guardar debaixo de sete chaves. Talvez ela seja a luz das estrelas. Faço um preâmbulo para abrir um parágrafo novo e lembrar que, no tempo do meu avô, a mulher para casar não podia sequer ter beijado outro homem. No tempo do meu pai, a mulher tinha de ser virgem para se casar. Hoje, se for mulher já basta. É o resultado do avanço social, tecnológico e sexual do Brasil da segunda década do século 21.

O país da atualidade está muito mais afiado do que a língua de sogra. Vivemos a era em que, mesmo sem plantar, tudo dá. E dá igual ou mais do que o chuchu. É algo muito mais intenso do que uma mistura de ritmos, tons, acordes e gritos. Eis a razão pela qual se tornou clichê dizer que o povo brasileiro dança conforme a música. Às vezes, são obrigados a bailar de acordo com a melodia que determinados líderes escolhem como a melhor para a ocasião. Tudo isso é muito melhor do que, entre a vida e a morte, perceber que o slogan da funerária onde estão negociando seu sepultamento é dos mais lúdicos: “Quem é vivo sempre aparece”.

Pelo sim, pelo não, não vale a pena dar murro em ponta de faca. Se o coração da patroa é uma pedra, compre uma marreta e a transforme em uma gata. Não pense nunca em apartar a contenda entre a mulher e o filho, tampouco em tentar se abrir com ambos para evitar a cizânia. Lembre-se antes da máxima de Freud, para quem aquilo que se abre demais jamais volta ao tamanho normal. Sou daqueles que tem sempre o pé atrás. Por isso, embora ache que toda balzaquiana militante dá um bom caldo, penso duas vezes para não esquecer que a alma muito recomendada não vai para o céu. Por fim, se aquele ex-presidente é uma cobra, faça do limão uma limonada antes que ele volte e destile mais veneno. Caso isso ocorra, é bom estar atento ao fato de que ele já saiu da sala mostrando a língua. Igualzinho à Seleção Brasileira que voltou antes de ter ido.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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