Curta nossa página


Leitura compartilhada

AO PÉ DO LIVRO REÚNE LEITORES EM TORNO DE BOYD E VALÉRIE PERRIN

Publicado

Autor/Imagem:
Cecilia Baumann - Divulgação

O Ao Pé do Livro nasceu no Rio de Janeiro com a discrição própria dos projetos que não precisam se anunciar em voz alta para terem sentido. Reunidos pela leitura, pela conversa e por uma história comum de encontros literários, antigos participantes do Papa Livros e do Ao Pé da Letra deram forma a um novo grupo, criado em 12 de abril, numa charmosa cafeteria em Santa Teresa.

Mais do que inaugurar uma agenda de leituras, o grupo preserva uma linhagem afetiva e cultural ligada ao trabalho da saudosa escritora, poetisa e historiadora da arte Ladyce West, cuja presença ajudou a formar leitores, aproximar pessoas e fazer da literatura um espaço de convivência. O nome escolhido, Ao Pé do Livro, traduz bem essa intenção: ler de perto, conversar sem pressa, compartilhar um bom café e permitir que cada obra encontre desdobramentos na experiência de quem a lê.

O primeiro encontro literário do grupo teve como obra escolhida À Espera do Amanhecer, de William Boyd, discutido no Capitu Café, no Cosme Velho, um dos bairros mais literários do Rio de Janeiro. A escolha do lugar não poderia ter sido mais feliz: entre cafés, lembranças machadianas e a paisagem afetiva da cidade, os leitores se reuniram para conversar sobre um romance feito de deslocamentos, ambiguidades, afetos e zonas de sombra.

A narrativa de Boyd ofereceu matéria fértil para a discussão. Não se tratou apenas de reconstituir a trama ou comentar personagens, mas de pensar o modo como a literatura organiza experiências humanas difíceis de nomear: desejo, culpa, memória, silêncio, perda, acaso. Como acontece nos bons grupos de leitura, cada participante chegou com sua própria escuta. E o livro deixou de ser apenas objeto individual para se tornar experiência partilhada.

Agora, o Ao Pé do Livro desenvolve a próxima leitura: Os Esquecidos de Domingo, de Valérie Perrin. A escolha desloca o grupo para outra atmosfera literária, mais íntima, atravessada por memória, vínculos familiares, envelhecimento, perdas e afetos que resistem ao tempo. Depois da arquitetura narrativa elegante de William Boyd, a obra de Valérie Perrin promete abrir uma conversa de outra temperatura, talvez mais recolhida, mas não menos intensa.

Há, nesse percurso inicial, uma linha de coerência. O grupo parece interessado em livros que não se esgotam no enredo, obras que convidam o leitor a permanecer um pouco mais nelas depois da última página. Em À Espera do Amanhecer, a discussão encontrou um romance de movimento, tensão, mistério e ambivalência. Em Os Esquecidos de Domingo, encontrará uma narrativa voltada às marcas que a vida deposita silenciosamente sobre as pessoas, sobretudo quando passado e presente começam a conversar sem pedir licença.

O Ao Pé do Livro surge, assim, como um desses espaços necessários em tempos de pressa e dispersão. Seu gesto é simples: reunir leitores, escolher uma obra, marcar um café e permitir que a literatura faça o que sempre soube fazer melhor: aproximar sensibilidades diferentes sem exigir que todas pensem do mesmo modo.

Entre Santa Teresa, Cosme Velho e os próximos destinos que a leitura ainda há de apontar, o grupo começa a desenhar sua própria identidade. Uma identidade feita de livros, cafés, amizade, conversas, memória e presença. Ao pé do livro, afinal, não está apenas o leitor. Estão também a possibilidade e a riqueza do encontro.

……………………..

Cecília Baumann, especial para o Café Literário.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.