Curta nossa página


Wanderlei-Maximilien

Aos 30 anos, nunca havia trabalhado um só dia em sua vida

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Wanderlei era poeta. Quer dizer, não era, mas imaginava ser. Cometia versos lastimáveis, quadrinhas em que rimava amor e flor, mas se julgava um Drummond. Ou, antes, um Cacaso: nascera em 1993, estava convencido de que era a reencarnação do expoente da poesia marginal brasileira, falecido em 1987.

Cacaso, seu suposto eu reencarnado, pertencera ao grupo de poetas da geração mimeógrafo, dos anos 1970. Esse era o único traço em comum entre o poeta e Wanderlei: o soi disant vate também recorria ao mimeógrafo para reproduzir seus poemas. Graças a ele, havia produzido nove livros de poesia, mal pensados, mal escritos, mal impressos, cheios de erros de concordância e gralhas tipográficas. E os assinava não como Wanderlei Leite, seu nome na certidão de nascimento, e sim como Maximilien van der Leyte, que julgava ter uma sonoridade mais romântica, mais poética, mais condizente com um devotado cultor de Érato, “a amável, a que desperta desejos”, musa da poesia lírica e erótica. “Um livro para cada uma das musas da Grécia antiga”, pensava sempre.

Aos 30 anos, Wanderlei-Maximilien nunca havia trabalhado um só dia em sua vida. Também, não precisava de muita grana, só para as raras ocasiões em que tinha companhia feminina. Morava com a mãe viúva, que não aguentava mais, suplicando-lhe que pelamordedeus arranjasse um emprego, encontrasse uma uma boa moça, nem precisava ser boa, qualquer uma servia, e se casasse. Ele repetia, sem perder a calma:

– Não, mãe, Érato é uma musa ciumenta, preciso ser fiel a ela – e ria da expressão aparvalhada e furiosa da pobre senhora, que nunca ouvira falar em musas, muito menos em Érato, e só queria que o filho, homem feito, voasse do ninho.

Para sobreviver, Wanderlei-Maximilien se virava com o Bolsa-Família e com os recursos de um programa similar, de seu estado. E por último, mas não menos importante, com a venda de seus livrecos. Ele os oferecia nos saraus – nos poucos que conseguia frequentar, sempre renovados, pois usualmente era logo convidado a retirar-se, devido ao nível deplorável de seus poemas – e nos bares. Neles, havia sempre um bêbado de coração generoso que adquiria um, pagando o que quisesse – 20 reais, 10 reais, uma dose de cachaça. O poeta aceitava, agradecido, a libação às musas, como dizia a si mesmo, e reservava o dinheiro dos bebuns para o mesmo fim. E, como modernizar-se era preciso, descolara um PIX – em nome de Wanderlei Leite, não do poeta Maximilien – para receber pagamentos.

Foi isso que fez chover na sua horta.

Certo dia, Wanderlei-Maximilien estava em casa, visitando preguiçosamente páginas do Facebook, quando recebeu uma mensagem pelo Private.

– Bom dia, seu nome é Wanderlei Leite?

Reconheceu o nome, era de uma mulher que, três semanas antes, havia adquirido em um bar um livro seu. Os leitores-compradores eram infelizmente poucos, dava para se lembrar de cada um deles.

– Sou o poeta Maximilien van der Leyte – digitou, orgulhoso. – Mas sim, pode me chamar de Wanderlei.

– Seu Wanderlei (Maximilien tremeu de ultraje ao ler o “seu”), mandei errado 2900 reais para sua conta. Pode devolver, por favor, pelo PIX xxxxxxxxx?

Wanderlei-Maximilien teve uma ideia luminosa. Desligou o celular antes mesmo de terminar a leitura do número do PIX. A ideia era fazer crer que não havia lido a mensagem. Não ia colar, mas não custava uma tentativa. Depois ligou o celular, viu sua conta bancária e, maravilha, o saldo era de 2920 reais. Jamais havia tido tanto dinheiro em sua vida.

Ficou um longo tempo babando, olhando a quantia. Por fim, triste por ter de devolver a fortuna (pelo menos a maior parte dela), foi para o MSG e digitou:

– Obrigado por ter investido 290 reais na compra de meus livros de poesia! Mas você se enganou, pôs um zero a mais, eles custam 290, não 2900 reais. Periga eu ficar com tudo kkk… Não se preocupe, é brincadeirinha.

Antes que a mulher explicasse que ele precisava devolver os 2900 paus, que ela não queria porra de livro algum, o poeta-aprendiz-de-chantagista prosseguiu:

– Aliás, vou tomar a liberdade de ficar com mais 30 reais, para meu próximo livro, que será publicado logo. Sei que você só queria comprar os nove, mas vou dedicá-lo a você!

Era mentira, não tinha livro nenhum a caminho. Mas nunca mais teria uma oportunidade igual a essa.

Percebeu que, do outro lado do éter, alguém digitava furiosamente. Teclou ainda mais rápido:

– Sabe, o poema de abertura se baseia em uma historinha divertida. Os bichos faziam uma festa na fazenda e acabou a cerveja. Procuraram um voluntário para comprar mais, a lesma se apresentou. Passaram duas horas, nada do bicho voltar. Furioso, o leão começou a xingá-la: “Lesma pilantra! Deve estar caída no caminho, de porre, depois de beber toda a nossa cerveja… Filha de uma égua!”

Ouviu-se então, da porteira da fazenda, uma voz bem fraquinha, que disse:

“Leão, se você continuar me xingando, eu não vou”.

A digitação parou do outro lado do éter. A pessoa havia entendido a ameaça velada.

Meia hora depois, depois de contemplar longa e amorosamente o saldo de sua conta bancária, Wanderlei-Maximilien, poeta e chantagista, enviou, com um suspiro de resignação, 2580 reais para o PIX indicado. Para a pessoa do outro lado do éter, era melhor que nada; para ele, o suficiente para uns três meses de libações às musas. Pois fez tudo isso em louvor delas, seu canto de meliante – chantagem vem do francês chanter, cantar – mesclava-se ao doce gorjear das nove filhas de Zeus e Mnemósine, deusa da memória, entidades associadas à criação científica e artística. E, em especial, à voz maviosa de Érato, sua musa, inspiradora dos versos de bons e maus poetas.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.