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Dona Lizete, a conselheira

Aos acanhados, cama vazia

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Dona Lizete é tão cheia de autoridade que poderia facilmente se passar por chefe de gangue. E há quem pense que a senhora de olhos amendoados e sorriso calculado esconda algo do seu passado, um assalto a banco, um homicídio ou, então, um furto de aspirina em alguma farmácia qualquer. Não por acaso, é respeitada por quase todos, que preferem não arriscar provocar imbróglios desnecessários.

A mesa ao canto no Bar do Bosco era praticamente usucapião da dona Lizete. Tanto é que, quando a velha não estava por ali, dificilmente alguém se atrevia a ocupar o local. Nem João Pinto notório gerente do jogo do bicho da região tomava tamanha liberdade. Melhor se escorar no balcão enquanto bebia uma gelada. Entretanto, de vez em quando, o sujeito era convidado a se sentar ao lado da mulher.

— Dona Lizete, posso fazer uso da franqueza que disponho neste momento?

— Diga lá, seu João.

— Não vai se ofender?

— E quem é que se ofende na minha idade, homem? Diga logo, que, pras bandas de cá, o tempo é um corisco.

— Pois vou dizer! Se a senhora fosse um tanto mais jovem, eu me atrevia.

— Não seja por isso, seu João Pinto, que aos acanhados só resta cama vazia.

Se a diferença de idades foi empecilho, ninguém se atreveu a dizer ou desdizer, mas a aliança foi firmada, a ponto da dona Lizete se tornar conselheira do contraventor. Devido a esse particular, os encontros dos dois passaram a ser mais frequentes.

— Lizete, tu acredita que o Lucas tá me roubando?

— O teu sobrinho?

— O próprio.

— Tá certo disso, João?

— Ninguém me engana, Lizete. Mas tô num impasse.

— Esse é o problema de trazer a família pros negócios.

— É verdade.

— Tu tem dois caminhos, João. Fingir inocência e assumir o prejuízo ou…

— Mandar matar o desgraçado?

— Não, João, a não ser que tu esteja disposto a entrar em conflito com tua irmã e, pior, com tua mãe.

— Fora de cogitação! Isso não posso!

— Mande o moleque me procurar.

— O que tu vai fazer, Lizete?

— Confie, meu querido.

No dia seguinte, enquanto dona Lizete pitava mais um dos seus cigarros mentolados, Lucas entrou no Bar do Bosco e caminhou até a mesa da coroa.

— Num sabia que podia fumar aqui.

— Você não pode.

O rapaz percebeu que havia pisado em campo minado.

— A senhora pediu pra falar comigo?

— Sente-se.

Lucas nem titubeou.

— Sabe por que posso fumar aqui?

— Não, senhora. Por quê?

— Não importa, isso não é da sua conta.

O sobrinho do João Pinto demonstrou desconforto com a rispidez da mulher.

— Tu tem orelha?

— O quê?

— Tu é surdo?

— Não, senhora.

— Tu é burro?

— Não, senhora.

— Que bom. Então, só vou falar uma vez.

Os que presenciaram aquele encontro poderiam dizer que Lucas parecia estar prestes a enfartar. Não enfartou, é verdade.

— O mal do malandro é achar que só a mãe dele faz filho esperto.

Suou frio. Nunca mais. Endireitou-se de vez.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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