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Mostra brasileira

Após meio século vale tudo da ficção ainda vale para uma minoria poderosa

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

O ano era 1971, um dos mais terríveis sob o comando dos generais de 1964. No mesmo ano estourou a música Vale Tudo, de Sebastião Rodrigues Maia, talvez o mais debochado e certamente o mais cínico de nossos compositores. Vivíamos sob censura e ensimesmados por um falso puritanismo que nos cercava dos bailinhos organizados nos terrenos baldios da periferia às impenetráveis festas de debutantes das regiões mais abastadas. Nessas, só os aspirantes a oficiais das Forças Armadas poderiam ter acesso. Mesmo assim, só os que apresentavam pedigree. Nunca tive interesse em pesquisar profundamente os motivos. Por obra e força dos censores ou por deboche deliberado, o fato é que a letra de Tim Maia por muitos anos ficou conhecida por ser uma das composições mais homofóbicas do Brasil. Eu tenho um posicionamento contrário.

Para mim, os versos “Vale tudo/Vale o que quiser/Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher com mulher/O resto vale” são autoexplicativos. Entendo que minhas suspeitas acerca do entendimento da canção de Tim Maia foram clareadas em 1988, com a estreia da novela Vale Tudo, protagonizada por Regina Duarte, Antônio Fagundes, Glória Pires, Beatriz Segall e Reginaldo Farias. A história de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères denunciava inversão de valores no país dos anos 1980. O texto e os personagens eram fictícios, mas os fatos absolutamente reais. Foi o período da consolidação dos modismos da sacanagem, da corrupção, da falta de ética, da desonestidade, da ausência de escrúpulos e do antagonismo entre afins. Ou seja, só era feio pessoas do mesmo sexo dançarem juntas. O resto valia, inclusive roubar sem ser preso. E como valia!

Passados 38 anos e vivendo sob um novo século, os estultos já admitem que homens dancem com homens e mulheres com mulheres. Podem, desde que eles (os hipócritas) não vejam. É uma decisão de foro íntimo, mas ainda hoje a tal da sociedade conservadora, a que pode tudo, a que não aceita resultados eleitorais democráticos, não vê com bons olhos a liberdade de gênero, considerada pela Constituição brasileira como direito inalienável e imprescritível do indivíduo. Na verdade, não a aceitam, pois comumente reagem com inexplicáveis e violentas manifestações homofóbicas e misóginas. Provavelmente são os mesmos que um dia acusaram o imortal Sebastião Rodrigues de homofobia. Por favor, antes de avaliarem qualquer feito do Tim Maia da Rua do Matoso, na Tijuca, consultem seus psiquiatras.

Isto não é apenas uma sugestão, mas uma recomendação de força maior. O Brasil de hoje é uma mostra de que a minoria que detém os poderes político e econômico permanece no vale tudo dos anos 80. Passam quatro anos enganando o povo, transformam em secreto o que era público (as emendas parlamentares), auto aplicam sigilo de 100 anos em questões que podem incomodá-los, compram votos descaradamente, tentam impedir o ir e vir de eleitores contrários e se acham no direito – e no dever – de afirmar que perderam a Presidência da República porque foram roubados. Agem como Odete Roitman, Maria de Fátima e os falsos profetas de 2018 e de 2022. Meu Deus, quem roubou quem? Perderam no voto e queriam levar no grito. Não conseguiram e jamais conseguirão.

Também não conseguirão tirar do sério as pessoas corretas que se cansaram do espezinhamento dos fora da lei. Esses foram capazes de, em janeiro de 2023, questionar a ausência de petistas nas ruas defendendo o presidente eleito das acusações mentirosas de ter ganho ilegalmente. A resposta é simples: os petistas são trabalhadores e tinham de ralar para manter os sanguessugas que, em nome de um fajuto patriotismo, ziguezagueavam como baratas tontas bloqueando ruas e rodovias e tentando desvirtuar as funções de nossas combalidas Forças Armadas. Deu dó. Queriam a volta de um passado que não viveram e, portanto, não têm ideia do que ele representou. Achavam que ditadura são somente flores. Sugiro aos mais velhos, aqueles que, na falta do que fazer, banalizaram a liberdade, a leitura dos livros de história ou de um best seller de autoajuda.

Mesmo os que não falam do período de chumbo serviriam para ensinar novos valores aos maus perdedores. Os compêndios também mostrariam que o vale tudo da família do Jair não é culpa do Tim Maia. Pobres dos patriotas de araque. Se convenceram muito rápido de que a mediocridade do mito era contagiosa. Alguns já se livraram da bactéria bolsonaristas. Outros, no entanto, preferem que ela (a bactéria) se transforme em um carcinoma incurável. São os boçais que perecerão acreditando em duendes e bruxas. Seriam diferentes se, por exemplo, lessem alguns escritos da jornalista, romancista, ensaísta e ativista norte-americana Katherine Anne Porter (1890/1980). Além do aculturamento tardio, certamente aprenderiam que “o passado nunca está onde a gente pensa que deixou”.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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