Solteirice
Aprendemos a Ficar Sós
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Se nos virem solteiras por muito tempo, não se preocupem. Nós sabemos ficar sozinhas. O que ainda estamos aprendendo com esforço, crítica e alguma ironia é ficar com alguém. Porque a solidão, ao contrário do que nos ensinaram, nunca foi o maior dos nossos problemas. O verdadeiro desafio sempre foi dividir a vida sem nos perdermos no processo.
Nós crescemos ouvindo que estar só é sinal de fracasso, de inadequação, de algo que deu errado. Mas ninguém nos ensinou a desconfiar do oposto: da pressa em estar com alguém, do medo do vazio, da negociação constante de limites para caber em relações mal resolvidas. Aprendemos cedo a nos adaptar, a compreender, a perdoar demais. E foi assim que confundimos vínculo com desgaste.
Ficar sozinhas exigiu menos violência do que ficar acompanhadas. A solidão nos pediu silêncio, reorganização, escuta interna. Já algumas relações nos exigiram amputações: de sonhos, de autonomia, de alegria cotidiana. Estar com alguém, muitas vezes, significou vigiar palavras, controlar afetos, reduzir expectativas para não parecer “difícil demais”. E isso, sim, nos feriu.
Nós sabemos cuidar de nós. Sabemos atravessar dias longos, pagar contas emocionais sozinhas, sustentar escolhas impopulares. O que não aceitamos mais é estar com alguém e ainda assim nos sentirmos sozinhas. Não aceitamos mais relações onde a presença pesa mais do que a ausência, onde o amor vira cobrança e a intimidade se transforma em vigilância.
Por isso, a solteirice não nos assusta. Ela não é castigo, nem fase de espera, nem intervalo entre histórias “mais importantes”. Ela é território de reconstrução. É onde reaprendemos a gostar da própria companhia, a confiar no próprio ritmo, a não confundir intensidade com profundidade.
Se demoramos, é porque agora escolhemos melhor. Não queremos qualquer pessoa queremos alguém que saiba estar, não apenas ocupar espaço. Alguém que não nos peça menos para se sentir mais confortável. Alguém que some, não que nos teste o tempo todo.
Até lá, seguimos sozinhas — inteiras, lúcidas, em paz. Porque ficar sozinhas nós sabemos. E só ficaremos com alguém quando isso não exigir que deixemos de ser quem somos.
Nós seguimos.