Curta nossa página


VERÃO 2026

AR QUE NÃO CHEGA: VERÃO E DESIGUALDADE NO RIO DE JANEIRO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Foto Francisco Filipino

O Rio de Janeiro tem dessas coisas: a cidade amanhece bonita, com aquela luz de cartão-postal, e ainda assim você sente que há um acordo secreto entre o céu e o asfalto para fritar o restante do dia. Quase início de 2026, verão em modo de exagero, e o calor não se comporta mais como clima. Virou personagem central. Ele entra sem pedir licença, senta na sala, abre a geladeira e, antes de ir embora, deixa a porta escancarada só para lembrar quem manda.

De manhã, o sol parece um vizinho inconveniente que decide fazer obra cedo. Não dá para reclamar, porque a reclamação evapora na garganta. A rua inteira fica com aquele cheiro de pedra quente e escapamento, mistura de cidade trabalhando e cidade cozinhando. O corpo vira uma superfície: tudo sua, tudo gruda, tudo se irrita. As roupas não são mais roupa, mas castigo que fazem lembrar a sabedoria de nossos antigos antepassados, povos originários, que usavam nenhuma. E ainda é cedo.

Mas é de noite que o Rio mostra sua crueldade mais íntima.

O calor noturno é uma espécie de maldade silenciosa. Durante o dia, pelo menos, existe um álibi: você se mexe, pega um ônibus, procura uma sombra, inventa um canto de vento. À noite, não. À noite a gente devia receber como prêmio um mínimo de alívio, uma trégua de natureza, um “boa-noite” do mundo. Só que o mundo responde com uma gargalhada abafada. O quarto vira uma panela tampada. A janela, quando existe, dá para um corredor de ar morto. O ventilador faz barulho de helicóptero cansado e sopra o mesmo ar quente, como se alguém tivesse assoprado de volta a respiração do dia.

É aí que a desigualdade, essa velha conhecida do Rio, chega sem metáfora: ela entra pelo calor.

Quem tem ar-condicionado não entende a noite como batalha. Aperta um botão e transforma o próprio sono numa pequena vitória doméstica. Quem tem casa arejada, árvore por perto, janela para o alto, ainda consegue negociar com a temperatura — um banho antes de deitar, um lençol leve, um ventilador bem posicionado, uma esperança. Mas o povo mais humilde, espremido nas favelas, em apartamentos pequenos, casas de laje, quartos que dão para paredes, sabe que o calor não se discute: ele se cumpre.

E o problema é que refrescar custa caro.

Custa dinheiro para comprar o ar-condicionado, custa mais dinheiro ainda para instalar, custa um susto mensal na conta de luz e custo, no fim, é só outra palavra para “não é para você”. Para muita gente, o verão é a estação do “depois eu vejo”, o tempo do improviso: uma bacia no chão para molhar os pés, toalha úmida no pescoço, garrafa d’água congelada abraçada como se fosse bicho de pelúcia, banho de caneca porque o chuveiro nem sempre é generoso. Tem quem durma na sala, perto da porta, esperando um vento que não vem. Tem quem leve a cadeira para a calçada, porque o lado de fora, apesar dos mosquitos, ainda é mais respirável do que o lado de dentro. E tem quem encare a madrugada como quem faz plantão: acorda, vira, levanta, bebe água, se abana, senta, deita, torna a acordar. Um balé de movimentos pequenos para não enlouquecer.

A cidade, enquanto isso, continua funcionando como se estivesse tudo normal. O calor faz parte da paisagem, dizem. “Sempre foi assim”, repetem, como se a memória fosse uma desculpa. Mas as noites parecem mais longas, mais pegajosas, mais sem saída. E o corpo cansado de trabalhar o dia inteiro não encontra descanso: encontra mais uma tarefa. Dormir vira esforço. O sono vira privilégio.

Na comunidade, no subúrbio, nos cantos em que a cidade se esquece de ser maravilhosa, o verão não é só desconforto; é risco. Criança inquieta, idoso debilitado, gente com pressão oscilando, gente sem água suficiente, gente que não pode abrir a janela por medo ou por barulho, gente que acorda para o trabalho com a cabeça latejando porque a noite foi um forno. E, ao mesmo tempo, ninguém deixa de viver. A vida não espera o clima melhorar. A vida, no Rio, é teimosa, é brava. A vida, improvável, aprende a se virar.

Há uma cena que se repete nessas noites: a rua com gente na porta, conversas miúdas, risos curtos, uma televisão vazando som por alguma janela, o cachorro estirado no chão, o ventilador lá dentro rodando como se tentasse mover o mundo. E ali, entre uma frase e outra, o calor vira assunto e vira cumplicidade, porque falar dele é quase um jeito de dividir o peso. “Tá brabo hoje.” “Hoje tá de matar.” “E amanhã dizem que piora.” As palavras são simples, mas carregam uma pergunta escondida: até quando? Março, abril…

O verão, escaldante indigitado, tem esse gosto de permanência, como se a estação tivesse decidido não ir mais embora. E, no meio disso, os cariocas seguem inventando pequenas formas de frescor, como quem inventa pequenas formas de esperança. Um gelo que dura poucos minutos. Um banho que alivia por meia hora. Um vento que aparece e desaparece como artigo raro. Um cochilo, enfim, conquistado de madrugada, quando o corpo desiste de lutar e se entrega, não por conforto, mas por necessidade.

E eu penso que o Rio, tão acostumado a se narrar em beleza, devia, às vezes, se narrar em temperatura. Porque tem uma parte da cidade que não está simplesmente “sentindo calor”: está atravessando o calor como se atravessa uma dificuldade a mais, diária, invisível, desigual. A mesma cidade que vende brisa em anúncio turístico, para muitos apenas entrega dias impossíveis e noites tórridas.

No fim, o calor passa. Sempre passa, ainda que devagar. Mas ele deixa uma pergunta grudada na pele: quem tem direito ao alívio? Porque, no Rio de Janeiro, até o frescor parece ter CEP.

………………

Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Martínez e Cecília Baumann, comanda o Café Literário. Carioca, é advogado e professor. Poeta, escreveu os livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho” (no prelo).

 

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.