Escudo negro
Aristarco sofre censura com histórias da vida privada (ou privada da vida)
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Fugido da ditadura nacionalista de Antônio de Oliveira Salazar, mentor espiritual dos ascendentes de Donald Trump, meu avô Aristarco Pederneira foi um daqueles heróis desconhecidos. Em qualquer roda, fazia questão de dizer que sempre dançou conforme a música, ajoelhou, mas não rezou, jamais pegou em algo mole por fora e duro por dentro e nunca se abaixou para pegar o sabonete que propositadamente jogavam no chão. Embora português do Norte do país, não fugiu à luta como fazem por aqui os do Sul, onde, antes de chegar ao Rio de Janeiro, ele, desavisadamente, foi parar.
Mesmo longe dos raios fúlgidos da pátria mãe, virou a boquinha da garrafa para baixo e mostrou a gregos, baianos e gaúchos que, além da parecência ortográfica com o tchê, o verdadeiro tchan é de frente para trás e não de trás para frente. No fundo do seu baú de inutilidades, além de meia dúzia de fotos dele vestido com a bombacha zipada nas costas, havia uma nota encardida de um dólar e um desses livros de brochura. Se vi, não me lembro do título, tampouco o nome do autor da obra. Todavia, jamais esqueci que a quase despedaçada contracapa continha uma emblemática e profunda frase.
Escrita em letras góticas e em corpo dos mais robustos, a tal frase virou emblemática e profunda por ter sido desenhada por um homem que veio de Portugal em um desses navios abarrotados de ratazanas no cio: “Talvez eu morra sujo, mas mantive a honra e a parafuseta limpas e impenetráveis”. A metáfora da morte suja talvez esteja ligada à história do sabonete no chão. Ao lado do irmão Petrúcio Pederneira, o velho Aristarco, ainda rapazote, embarcou, sem saber, em um navio negreiro que, desavisadamente, fizera uma baldeação em Lisboa.
Imaginando se tratar de uma fortuita Van de carreira com destino ao Méier, à Praça Mauá ou ao Lago Paranoá, não pensou duas vezes. Embarcou para a maior aventura de sua vida. Muito maior do que toda a experiência no Rio de Janeiro dos anos 30 a 70. Comeu o pão que o diabo amassou, mas jura não ter sido comido por nenhum dos filhos bastardos do capitão, chefe em primeiro grau do sargento e do soldado que tentaram, tentaram e não conseguiram colocar o Supremo Tribunal Federal de cócoras. Invadiram e quebraram, mas não derrubaram o império da lei.
De posse de uma rabiscada tabuada em algarismos romanos e de um livro de poesia do Bocage, autografado por Luís de Camões, vovô provavelmente foi o precursor das histórias do tipo a vida como ela é. Bem antes de o estilo ser magistralmente explorado por Nelson Rodrigues, vozão já rabiscava encontros e desencontros experimentados durante as guerras europeias. É claro que seus contos e encantos seriam considerados indignos para os então salões ecumênicos da Casa Branca, mas dignos até a boca para os pais e mães dos deputados e senadores que hoje não se envergonham de se fantasiar com uniformes nas cores verde e amarelo.
As cores e o descalabro maldoso dos ditadores portugueses foram materializados pelos meninos e meninas golpistas em uma inesquecível “festinha” no play da Praça dos Três Poderes. É por isso que concordo com meus contemporâneos intelectuais, para os quais nem sempre os filhos da mãe são filhos do pai. Sei que isso não vem ao caso, mas, às vezes, são filhos amados de uma professora substituta. Deixa pra lá. Voltando ao meu avozinho querido, embora normalmente discorresse sobre seu modus vivendi, os casos escritos a bordo do navio negreiros, eram, na verdade, muito próprios para a vida privada. Quem sabe para a própria privada. Em um deles, vovô narrou, sem metáforas ou neologismos, sua entronização pelos roteiros cinematográficos.
Por decisão da primeira dinastia Trump, o texto passou por Ponta Grossa, escorregou em Curralinho, adentrou recintos suntuosos da Corte de Haia, mas nunca chegou a Hollywood. Dizem que o tataravô de Eduardo Bolsonaro, o nobre Bolsonaro I, censurou a obra, impedindo que ela fosse lida por Elon Musk e copidescada pela porta-voz da White House. Tudo por conta dos extremistas cristãos da Ku Klux Klan e dos demais supremacistas brancos do Sul dos Estados Unidos. Convivendo por meses a fio com duas ou três gerações de famintos e dóceis negros africanos, meu avô assistiu, usou e certamente materializou a primeira versão de O Escudo Negro, o filme que não houve e, por isso, ninguém viu. Imaginando apimentando o caneco de Salazar, Aristarco Pederneira viu tudo.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras